terça-feira, 27 de março de 2007

As férias da Páscoa estão a chegar, Frouxo!

Caríssimos leitores,
Aproxima-se mais uma quadra de férias pascoais.
É com esse espírito vos ofereço alguns pontos de reflexão para as merecidas férias. Um dos enigmas da proto-história da Escalada/Montanhismo que ainda hoje persistem.
Refiro-me a aquele tema, ainda hoje em aberto sobre o alegado mérito das ascensões de vias, em estilo alpino, abertas por Jesus “Cristo”, protagonista destes dias do calendário.

Vejamos:
Há quem lhe negue mérito, argumentando que não pode ser considerado grande escalador, montanhista ou alpinista, como queiram apelidar) e que o seu único feito de relevo foi a abertura da via Normal ao Monte Gólgota, a chamada “Via do Calvário” (Pd ou Ae/1c±, 25º), integrando uma expedição romana, de estilo pesado, pendurando-se várias vezes dos pitons instalados.
Se a estes elementos acrescentarmos que não sobreviveu à descida dá-se conta do pouco, que na verdade reverteu do seu feito. Se bem que há quem afirme que Jesus “Cristo” sobreviveu ao bivaque graças a umas vestes de ressu-rex, da firma então embrionária, Glori-tex. A mesma que mais tarde veio a estabelecer laboratórios de investigação das tecnologias do vestuário, em Turim.
Ficou, então, posta de parte a qualidade do estilo por não ter havido lugar a encadeamento no genuíno sentido do conceito. Os sagrados critérios aplicados nessa avaliação, ainda hoje se conservam, à custódia da Basílica de Oitänû, na Suécia.

O que é facto é que enquanto que a sua cruz estava equipada com pitons, as dos companheiros que com ele alcançaram o cume, tinham apenas algumas anéis de cordelete, o que levanta a questão, se de facto Cristo estava adiantado para a sua época pela utilização de equipamento fixo ou se por outro lado a sua subida aos céus foi de todo, pouco ética.

Há ainda que recordar que a ascensão foi precedida de um bivaque difícil, caracterizado pelo mau relacionamento com outros membros da expedição, correndo, à boca pequena, que teria havido abusos e recurso a bocados de corda dupla para frisar diferenças de opinião, diferenças essas teriam ficado visivelmente vincadas até…
Supõe-se que o tema de discussão versava a má distribuição do peso de equipamento entre os membros da expedição e papéis de liderança. Como se sabe, coube ao “Cristo” o transporte dos volumosos tacos de madeira, cruzados, como era usança de então, naquele tipo de ascensões. Por aqui se deduz muito da condição física e valor deste protagonista.

Ainda em seu mérito cumpre recordar as origens do cognome “Cristo”, o escalador oriundo da zona da Nazaré, adquiriu este epíteto, graças à criatividade na resolução daqueles passos difíceis, que tantas celestiais “portas” abrem, partindo exactamente, da posição de extensão lateral máxima dos membros superiores. Uma verdadeira revolução na análise da motricidade, aplicada à escalada.

No seio dos cépticos, há quem automaticamente impute à mentalidade campista dos primeiros tempos, todas as fórmulas de proceder questionáveis: “no fundo, tudo isto provém da inconsequência de acções dos antecessores”.
Ainda se contam relatos dos proféticos nomes sonantes de tempos anteriores, que na ânsia de fugir do bulício e stress das cidades egípcias teriam organizado rock-trips de numerosos elementos, o que , no entanto, surtiu pouco do ponto de vista do rendimento desportivo, visto que se veio a verificar que o destino escolhido, a dita terra de escalada prometida, afinal tinha demasiadas vias de presas polidas, e ao contrário do esperado, afinal corria mais vinho do que o leite e mel prometidos inicialmente.

Por último, há a destacar que há frases ambíguas, contidas nas biografias apócrifas de Jesus, de alguma forma contraditórias, como por exemplo na célebre frase: “Quem pelo ferro mata, pelo ferro morre”. Uns dizem que a mensagem contida é puramente anti-escalada desportiva e outros permanecem convictos de que se trata de um claro aviso aos que roubam protecções ou as martelam.

Talvez algum esclarecido leitor possa trazer luz sobre estas questões…

Boas férias!

quinta-feira, 1 de março de 2007

Parabéns, Nuno Pinheiro!

Mais vale tarde que nunca. À semelhança do blog da bolinha, também nós não quisemos deixar de prestar homenagem a uma figura que sempre foi, é e continuará a ser motivo de inspiração para os escaladores portugueses.



Fica também a explicação do post anterior para todos aqueles que são demasiado fortes (ou estavam demasiado pedrados) para o perceber. Como se diz, uma palavra vale mais que mil imagens... ou a imagem é que vale mais que mil palavras... bom, uma cena assim.

Para todos os que repararam que não utilizámos a palavra frouxo e derivados no título deste post, sugiro que leiam o título com mais atenção e que, em seguida, vão a um dicionário de sinónimos consultar o significado da palavra "frouxo". Dou uma pista: Um dos sinónimos não é "Parabéns".

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

A cana do frouxo

Meus senhores eu sou a cana!
Que alcança a tige e a plaquete
Que salva as calças de ser retrete
Que alcança longe e alcança perto
E dá triunfos a qualquer Alberto
Que aponta as presas de pé e as de mão
Que tanto ajuda a tanto cagão.

Meus senhores aqui está a cana
Que é de alumínio ou de bambu
De fibra-de-vidro ou de pau cru
Que canta os passos à Maria e ao João
E salva o dia em qualquer situação
Que usa a menina e que usa o menino
Pois ir à frente revolve o intestino

Meus senhores aqui está a cana
Que segura a corda e o mosquetão
Que salva da queda e do trambolhão
Que desenvolve as artes e as manhas
E limpa as presas cheias de aranhas
Que protege vias curtas e de runouts largos
Que salva a malta dos voos amargos

Meus senhores aqui está a cana
Que põe em top quem vai a frente
Que desculpa o medroso do acidente
Que equipa as vias de alto a baixo
E revela o frouxo que se dizia macho
Que envergonha o roto e envergonha o nú
E empala a sério quando há excesso de mú

(Inspirado no poema "A água" de Manuel Maria Barbosa du Bocage)

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Moraleja popularucha e muito frouxa, por sinal

Era uma vez um grupo de escaladores cromíssimos e frouxíssimos que se chamavam: Ninguém, Alguém, Toda a gente, Cada um e Qualquer um.
E passou-se o seguinte:
Havia uma nova via, ainda projecto, por encadear e...
Toda a gente tinha a certeza que Alguém a encadearia,
Qualquer um poderia tê-la encadeado,
Mas Ninguém conseguiu encadeá-la.
Alguém ficou furioso, porque se tratava de um projecto de Toda a gente.
Cada um pensou que Qualquer um poderia tê-la encadeado,
Mas Ninguém pensou que Toda a gente ia tentar encadeá-la.
O resultado é que Cada um acusou Alguém,
Dado que Ninguém encadeou a via que Qualquer um poderia ter encadeado.

Eu não tenho culpa... O progenitor deste estamine já tinha avisado:
“…se percebem tanto do tema que julgaram possível que aqui se fosse escrever uma linha sequer que se aproveitasse sobre escalada, este é o vosso blog…”

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

diário de um frouxo

Querido bló:

Têm sido dias muito ocupados, estes. A escalagem rouba-me tempo para as coisas realmente importantes na vida, como escrever neste estaminé. Mas sinto que está a valer a pena. O projecto está cada vez mais perto. Ontem dei-lhe o pegue nº 425 - o terceiro à frente. É óptimo ver que já começo a ir à frente com regularidade.
Mas as boas notícias não terminam aqui. Sinto que estou cada vez mais consolidado na via. Há vinte pegues que a coisa não me corria tão bem. E, confesso, já estava a desanimar. Mas ontem voltei a cair novamente no passo da reglete. Ou seja, semana sim semana não, chego à reglete. Antes era de mês a mês! Há aqui, sem dúvida, uma evolução. Não há-de faltar muito para que comece a pensar em lançar para o bidedo. Depois disso, quem sabe? Tudo é possível. Até chegar ao passo duro a encadear!
Mas por enquanto importa manter os pés bem assentes na terra. E concentrar-me no que tenho para optimizar. Estou quase a fazer a secção de continuidade de seguida! Há um passo do meio que já não me custa tanto. Foi só mudar o pé para a parte direita da prateleira, e pumba! já sai em estático. Quem sabe não foi esse bocadinho de energia que poupei que me fez agarrar a reglete, colocar o pé na presa e, imediatamente antes de cair, olhar para o bidedo com determinação! É altamente motivante perceber que estou a evoluir na via. Mal posso esperar para lá ir de novo!

Bem medidas as coisas, estou convencido que o 6a sai mesmo este ano. É tão bom começar 2007 com optimismo…

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

O triunfo dos frouxos e a Ordem Natural

Ai que saudades daqueles tempos em que a escalada era domínio de uns poucos!
Dentro do punhado de praticantes, venerava-se uma elite de Senhores da Escalada - verdadeiras tríades de tudo o que dizia respeito à modalidade - Só eles sabiam tudo. Falava-se que conheciam todas as escolas mitológicas de escalada… tinham os nomes associados ao algarismo 7... 7... Naqueles tempos… Vejam só!

Era uma experiência fascinante. Víamo-los, pouco, fugazes e altivos mesmo quando estavam logo ali ao lado o dia todo.
Voltávamos para o pé dos companheiros, mais prestigiados só por ter estado com o X a fazer xx e a cumprimentar o Y .
Nas falésias, nas lojas de material, na pastelaria de turno, era um espectáculo divinal. As brumas da mística envolviam tudo e todos os que há mais tempo se agarravam à escalada.
Havia até provas não oficiais de perícia para ver quem conhecia mais artigos dos catálogos da Petzl, as peças mirabolantes de equipamento, embora só tivesse utilizado o oito e umas expressos, na prática. Decoravam-se fichas técnicas com uma fidelidade dogmática.

Velhos tempos em que o arnês era "bôdríê", ou "baudrié" ou burrié, já nem sei …. Era um banho de influências francófonas. Uma “souplesse” com que “doucement” se baixava o companheiro da via de “reglettes” e “goutes d’eau”, feliz por ter conseguido o passo de “pied-à-main”.
Havia provas de vinculação, apreciáveis pelo vestuário de culto (às marcas especialistas) em que se avaliava quem envergava mais vestimenta técnica (para levar uma vidinha quotidiana de cidade) e também no tempo de permanência em contacto com os símbolos da escalada. O que posicionava favoravelmente todos aqueles que operavam nas escassas lojecas e seus dilectos amigos.
Eram autoridades, a quem interrogávamos acerca de uma peça de equipamento ou vestuário técnico de preço injurioso, mas não tão caro como uma informação vinda das suas bocas monossilábicas.

A título de exemplo, o iniciado, num certame da especialidade, perguntava:
- Por favor… quanto custa este rolo de corda?
Resposta: [intervalo de tempo] Rolo de corda? Rolo de corda? Isto é cabo estático de 11mm! …altamente técnico! Isto é só para ser utilizado por quem sabe! (como quem diz: achas que tens nível para comprar um produto destes? Tens que implorar, cão!)
Expositor seguinte:
Pergunta: - Por favor…Quanto custa este cabo?
Resposta: [intervalo de tempo] (como quem diz já me deves 10 melréis) “Cabo? Cabo? Cabo só se for o da Marinha.!... Cabo é da vassoura!...etc. & tal…”
Admiráveis episódios similares nos percorrem a memória. Desta forma a sociedade organizava-se espontaneamente.

Que riqueza nas mensagens implícitas que guarneciam os olhares abreviados, e as frases dispendiosas e curtas a rebentar de subentendidos de conteúdo gasoso.
Havia uma escala de “ascensão social” ligeiramente correlacionada com a evolução desportiva do escalador. A célula social básica era a do patrono e os seus párias.
Isso é que eram os bons velhos tempos. Agora dirige-se a palavra a qualquer um num grau intimista altamente reprovável. Parece um jardim infantil cheio de amiguinhos culambistas. Uma moleza de carácter que nada tem que ver com o trato austero e sóbrio de outrora. Todos dirigem a palavra a todos… Mas o que é isto?! Onde ficam as boas maneiras?
As vias outrora cobertas de véu de tabu, correm hoje sérios riscos de se verem encadeadas por escaladores prematuros, num desvario debochista, capaz de fazer desmoronar as mais altas hierarquias e mitos rupícolas do nosso tempo.
Porque é que as pessoas não se colocam nos seus lugares? Escalador de Vº é escalador de Vº e deve reverência aos escalões seguintes sucessivamente. Compreendam isto, insurrectos!

Eu, por mim, desde já afirmo que não terei a ousadia de dirigir mais palavra à “Redondinha”, enquanto o seu primeiro oitavo não for devidamente decotado, como mandam os bons costumes.
E isto sim! Isto é que são modos de gente bem-educada.
Já o outro condómino deste estaminé abordou um pouco deste tema na ”A frouxidão dos incentivos”.
Não há cá “bom dia” nem “olá”!
É:
- “Qual é o teu grau?!”; “com quem costumas escalar?”; “Eu já fiz estes graus todos e conheço a Maria e o Manel…”
E a partir daí, é só seguir a ordem natural das coisas.

domingo, 24 de dezembro de 2006

a frouxidão da irmandade da topalhada

Foi com enorme contentamento que frequentei mais uma vez o workshop de escalada que, todos os anos por esta altura, tem lugar em Poios. O meu entusiasmo é natural; o corpo docente é composto por escaladores experimentados, que dominam na perfeição a técnica das duas argolas. Como é lógico, todo aquele que procura aperfeiçoar-se cada vez mais nesta modalidade, que busca incessantemente novos desafios e tenta forçar continuamente os seus limites pessoais, ou seja, aquele que busca ir sempre mais além, que sonha subir o que muitos auguram como impossível, inacessível, esse exemplo de força pura, de técnica moldada pelos anos e pelos quilómetros de via, de fanatismo à prova de bala… enfim, qualquer escalador digno desse nome, não vê utilidade nenhuma neste tipo de encontros. Mais do que isso, até tem vergonha de ser visto nestes ambientes. Mas eu não podia faltar a tão excelsa oportunidade de beber dos ensinamentos dos mestres na arte da topalhada.
No entanto, a fraca adesão ao jantar não passou despercebida. Só cem pessoas? Uma mera centena? Será que não conseguimos juntar mais de cem frouxos? É tudo isto que a escalada em Portugal tem para nos dar? Onde estavam todos aqueles que voam de presa em presa nos rocódromos? Porque motivo não compareceram ao workshop as centenas de escaladores, quiçá dezenas, que, magnésio líquido na mão e five-ten de cem euros no pé, são vistos, fim-de-semana após fim-de-semana, a subir avidamente os quintos degraus da guia depois de terem ido pastar às ervas para pôr a corda em top? Será que estavam ocupados a encadear oitavos, nonos e décimos numa qualquer falésia perdida em Portugal? Bom, se calhar não.
A verdade é que todos estes escaladores perderam um evento ímpar. Esta é a altura em que podemos dar largas à nossa frouxidão sem termos de dar satisfações a ninguém. Querem melhor oportunidade para justificar a falta de força sempre que se agarra uma presa mais pequena que um caixote, ou as tonturas que aparecem quando a nossa cintura fica a uma altitude superior à da expresso, com o etanol consumido na noite anterior? Mesmo que não se tenha bebido, todos sabemos como estes jantares são de digestão pesada...
Com efeito, o programa do evento foi delineado cuidadosamente de modo a nada ser deixado ao acaso. Após a lição teórica de sábado, a organização brindou os participantes com um convívio preparatório que se iria revelar completamente adequado às aulas práticas que tiveram lugar no domingo. Todos os escaladores que frequentaram a preparação da noite anterior mostraram resultados excelentes e provaram que absorveram em pleno a matéria leccionada. Não raras vezes, o vale de poios deparava-se com um espectáculo de meia dúzia de escaladores pendurados nas cordas, lado a lado, quais presuntos em fumeiro. A expressão “bloca!” foi a palavra de ordem e muitos foram os corajosos que arriscaram um “deixa nas duas, vou lá em top”. Resumindo, ninguém quis perder a oportunidade de testar o poder das duas argolas.
Para os outros, esperamos que apareçam da próxima vez. Treinar no muro não chega para aumentar a frouxidão. E este tipo de eventos só acontece uma vez por ano!

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

A Frouxidão do Chorão

Quem é que não conhece um bom Chorão?
O Chorão é daqueles espíritos que nunca estão satisfeitos.
A capa de modéstia serve apenas para manter um estatuto pária e descomprometido em relação aos cromos de topo, só para não se notar muito quando o pico de forma acabar de forma dramática, quebrando o cristal de encantamento dos bons resultados episodicamente registados e revelando desse modo a verdadeira essência de frouxo miserável.
Um frouxo sazonal. Mas um genuíno frouxo, não haja dúvida.

O Chorão é aquele que ainda agora chegou à falésia e já se está a lamuriar pelo seu alegado estado depauperado de forma física, as mazelas do treino, as lesões lesivas e as influências sociopolíticas do clima sobre a capacidade atlética do momento.
É aquele que zomba do povo humilde e trabalhador, aquecendo nos seus projectos para o dia, saltitando nas ínfimas presas, aproveitando os repousos para “não repousar” entre gemidos e grunhidos mal-fingidos, que acompanham o inexistente “estado-limite” de esforço.
As expressões faciais e vocalizações (quando as há) soam a falsete, tudo parte duma capa de fingimento hiperbolizado à saturação, quando na verdade, todos os sistemas músculo-hidráulicos dão um show da mais suspeita fluidez vinda duma carcassa de hominídeo, alegadamente, acossada dos maiores achaques e moléstias, supostamente.
Uma auto-estima que se apresenta tão baixa como as mais baixas, nem o cão mais lazarento e escrofuloso convenceria tão bem, não fosse aquela mecânica mágica de membros apanhar tudo o que há e não há, nas vias mais reputadas, sem um suspiro, como quem apanha cerejinhas à altura dos olhos. O canastrão parece que escorrega para cima, sem o mínimo ruído de respiração, ou já agora, de qualquer outro sinal vital que seja.
É esse mesmo. O Chorão. Na verdade o Chorão não passa de um frouxo “refinado”.
A auto comiseração é o seu habitat. Estratega da própria imagem usa habitualmente a metáfora neurobalística.

Como adepto da neurobalística, e a sua arma favorita é a fisga. Sim, uma fisga como daquelas dos putos, mas imaginária. Mero recurso de estilo.
Fixa-lhe o cabo numa via prestigiante (pela aura mística ou pelo grau), apoia-se no meio dos tirantes elásticos e começa aplicar-lhes a devida tensão, submergindo-se em lamentações cabisbaixas e caretas desesperançadas do encadeamento. E vai esticando, em profundidade, os elásticos na directa proporção dum chorrilho de comiserações à volta das últimas desventuras psicomotoras que o atormentam.
Espoja-se e enterra-se figurativamente no pó do chão escavando incertezas pouco incertas, bem nutridas de ladainhas de dores e terrores infindos, na antevisão do “além” dos passos (de caca) da entrada.
Nesta altura, a mesmíssima via já adquiriu um valor bem acima do barril de Brent e o escalador começa a recolher os apoios sentidos da plateia. (Pelo menos os apoios daqueles que não conhecem já o intérprete… e às vezes, mesmo dos que já o conhecem).
… E estica ainda mais os elásticos… Recordando um longo historial das suas cicatrizes “de guerra”. Se não chegarem as próprias cicatrizes, toma de empréstimo os fracassos dos autores das tentativas anteriores. Sim, esses é que eram uns valentes, dignos de toda a ordem de elogios (que o “chorão” recolherá mais tarde).
… e os elásticos da fisga esticam, e esticam, e esticam… até quase à ruptura (da elasticidade e contenção do auditório de olhos já marejados de lágrimas).
Neste momento ou se solta da fisga e aceita as consequências ou continua incrementar o chorrilho de queixinhas, rebentando o elástico da credibilidade e cai estatelado no ridículo arriscando-se a perder as indispensáveis atenções da assistência.
Levou ao extremo da expectativa, a atenção complacente de todos, e vai arrastar esse sentimento a cada passo que dá em direcção à muralha infranqueável (são só 6 chapas num bordilho, mas agora parece o FitzRoy).
Até ao último momento antes de começar a escalar, paira no ar uma atmosfera que apela intensamente à misericórdia mais sentida, ouvem-se violinos, e um coro de vozes cristalinas da “Cantata per una infanta defunta” ecoa na mente de todos.
Um ambiente de comiseração do mais pungente e complacente. Todas as almas estão em farrapos. Afinal, trata-se da criatura terrestre mais sofrida e moribunda, cuspida e escarrada pela vida, e que apesar de tudo, no estertor das ultimas forças, investe tudo na ascensão de uma via. Alguém que se ergue nos pés de gato “arruinados” (recauchutados há uma semana) carregando dependurados do arnês todas as agruras duma ”Retirada de Caporeto”.

È então que…
… ZÁS!!
Libertam-se os elásticos.
Sai disparado em direcção ao top.
Há quem vá gritando as presas boas.
Não as ouve.
Agarra ao lado… hoje é tudo bom.
Não rectifica nem corrige um movimento que seja.
É que, por acaso, hoje é tudo bom.
O segurança quer acabar de comer a sandes.
Não pode.
Tem de dar corda desalmadamente, porra!-porra!-porra! dá!dá!dá!dá!
O “animal” mal pára nos descansos.
Fica por demais óbvio, que a via está bem abaixo das possibilidades do escalador – e por isso só cabe deduzir que se trata de um frouxo oculto. “Filho de frouxo sabe afrouxar” não se expondo facilmente a testes mais exigentes. Também não é parvo!

È um festival da maior efusão! Todos sentem que um pouco de si chegou ao top
Esfrega-se bem os olhos para acreditar… é fabuloso! Maravilha!
- Este gajo é um autêntico boi de força – Booaa!
- Até deu gosto ver!
- Parabéns pá!
- Parabéns seu tangas!
- “nhã-nhã-nhã… que era muito difícil…” e afinal…
- Subiu que parecia o macaquinho Fishuber….Impostor!
- Palerma! Chorão de m*rd*! Vai enganar a tua prima ó tretas!
… Anda práqui a fazer filmes e agora sai-se com esta? Vai-te-c’gá’páá!

A Reacção dos humilhados e infortunados candidatos ao encadeamento da preciosa via não se faz esperar.
Aquele bocadinho de cada um, que, há segundos tinha atingido o top, esborracha-se na indignação geral.
Chegado ao chão desdobra com cuidado o seu “saquinho” (ilusório) de donativos, que circula entre os presentes recolhendo (figurativamente) por entre assistência os elogios que investiu nos méritos alheios e nos que entretanto se multiplicaram. É o cúmulo da “arte financeira” semita em unidades medida de satisfação efémera.
Encadeou. Mas não perde tempo em manifestar a sua insatisfação pelo esforço dispendido, e “- não agarrei tal presa… e os pés até saíram… não foi bem como eu queria… eu não merecia encadear…” – que nojo de descaramento! – “… não estava à espera… porque é que hei-de ser tão bom(a) tão excelso(a) e lindo(a)? Não é justo (suspiro)” – e a assistência, abanando a cabeça: - Porquinho! Porquinho chorão! Vai-ta’pó…!

Há um prazer mórbido nesta dialéctica de arrastar ao mais profundo da humilhação pessoal as expectativas para depois, num repente, virar tudo ao avesso, saindo projectado em glória, uma glória esplendorosa, da mais aparatosa apoteose de sucesso.
Patológico. O Chorão chega a “meter nervos” nas pessoas. E isto é genial.
Trata-se de um exercício de polimento do ego sustentado na criação de uma grande amplitude ascensional na escala da admiração pública. Essa amplitude que vem desde o patamar mais baixo e profundo da penúria humana e que, por vir de tão baixo, toma contornos de fulgurante ascensão. Quando na verdade fez o que já outros fizeram por um preço mais “barato”. Tretas, no fundo.
Se tivesse começado ao nível do chão, “na base da via”, a glória seria “só metade”. Assim, como fez um choradinho de lamentações, “cavou” uns patamares mais para baixo acrescentando à via, metros, grau e valor, sem por outro lado arriscar ser pontapeado pela plateia caso falhe, uma vez que já conseguiu amealhar uma grande compreensão e humanidade nos corações de todos.
Isto é genial!
Eis “o chorão”.
Quem nunca escalou com um bom chorão que verta a primeira lágrima!

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Para além de Frouxo… também… Chorão

Como se já houvesse cá poucos…
Pois é. Temos pendura. Foi a melhor forma que se encontrou para evitar a proliferação maciça de blogues irrelevantes sobre escalada mesmo que jurem que têm “outro-assunto-na-vida-para-além-de-escalada”.
Criar um blog está demasiado vulgar. Requer, no entanto, algum dinamismo de iniciativa. E iniciativa é algo que os frouxos racionam muito bem. Logo, o cúmulo da frouxidão só poderia estar no estatuto parasitário de se colar aos blogues dos outros, mantendo um índice de responsabilidade e compromisso baixinho e discreto.

É aritmético: a responsabilidade, quanto mais se divide mais tende para o zero. Essa-é-qué-essa!
Além disso está na moda. Blogues que começam extremamente pessoais, até com um fascinante charme distintivo, têm sofrido, ultimamente, vergonhosos assédios. Insidiosas personagens infiltram-se nos íntimos recantos dos outros com os mais patéticos pretextos: “áh! é só este textosito, depois deixo-te em paz… e mais este “breve” artigo, talvez mais este…”, ou: “Vá lá! Dá-nos as senhas… vais ver que apesar de tudo continua a ser um blogue intimista como sempre quiseste! vá lá! Somos só mais dez! …”
E com esta e outras, “emplastrificam-se” os blogues por esse mundo fora…
Frouxo mais frouxo não há, nem pode haver.

“Então, e quem será Vossa Senhoria, que aqui se instala neste recanto de indolentes??” Pergunta o leitor (aquele leitor que por azar aqui se demorou para desenfastiar das coisas imensamente mais interessantes e úteis que poderia estar a fazer).
A pergunta deveria ser outra: quem é que ainda não tem uma treta destas?

Se ser frouxo é trazer na alma um retrato colectivo, esse retrato corria o risco de ficar incompleto se não irmanasse com a créme-de-la-créme da impostorice frouxista:
Senhoras e senhores, meninos e meninas sérias!... É com imensa indiferença que me apresento neste circo internautico…
O... CHOORÃÃO!
Esse mesmo. Aquele com quem se encordam tantas vezes: o Chorão. Um bom chorãozinho queixinhas “à maneira”.

“Ai que carago! E eu a perder tempo com isto!” lamenta o leitor.
Pois eu prometo que um dia ainda vão apreciar os escritos deste autor. Ainda hão-de saber ver o real valor destes textos palermas. Pequenos na pertinência e, quiçá, reduzidos no valor de entertainment. Uns modestos textos … a bem da verdade, uns textículos sem-pés-nem-cabeça.
Mas, um dia, alguém ainda vai dizer:
“- Áhh! que belos textículos que o Chorão tinha! … -Que falta fazem os textículos do Chorão… Ai! que pena que já não há mais…”
E aí, já não vou estar a chorar, mas a sorrir, altivo, confortavelmente reclinado na minha “fisga” moral! Ohohohoh!

A vantagem dum chorão num blog destes está em dar uma perspectiva mais humana (lamechas) num mundo rude e mau e cheio de coisas que picam na ponta dos dedos, arranham a pele e magoam os tendões. Razão pela qual, agora termino esta apresentação, porque não me estou a sentir em forma para continuar, além disso ainda não estou completamente refeito do susto do outro dia em que quase caía antes de agarrar a expresso … Os ombros não estão nada famosos e ainda faltam algumas sessões de fisio…. e o dedo ainda não está bem recuperado da fibrose na sétima junta sinovial (Ah pois! Um bom chorão conhece todo o léxico clínico-ortopédico relacionados com as maleitas da arte).


I climb as hard as anyone on earth. I just do it on easier routes.
(“Mad Dog”, 1998)

mais vale um frouxo com a expresso na mão que um chorão a voar

Só para avisar os assíduos desta espelunca que a partir de hoje haverá outro escriba neste blog. Pensei em convidar o Chris Sharma para o efeito mas ele anda ocupado com as aulas da segunda classe. Além disso, esse gajo é forte e destemido, e do que este blog estava a precisar era um gajo com "uma percepção equilibrada e sensata da realidade". De modos que a partir de hoje teremos connosco o chorão. Assim, o blog continuará homogéneo, já que ambos os dois sabemos como manter o espírito da coisa. É só ir em top.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

a frouxidão do futebol

Ontem à noite o Benfica foi eliminado da Liga dos Campeões. E com esta notícia perdi metade dos leitores deste blog. Não que estejam chateados com a eliminação do Benfica – na verdade até devem estar contentes, porque assim “não temos de apanhar com futebol a toda a hora”. Esquecem-se é que o Benfica vai continuar na UEFA. Ah ah ah! (riso maquiavélico).
A verdade é que o Benfica, apesar de um começo auspicioso, não soube aguentar a esperada pressão do Manchester United – só um terço dos leitores que começou o texto me está a ler neste momento - e, quando a equipa das águias saía para o contra-ataque, tentava municiar os dois atacantes em longos lançamentos – um quinto dos leitores! – que favoreciam a antecipação dos possantes defesas da equipa inglesa. Em suma, o meio-campo povoado e o pressing alto do Manchester cavaram um fosso na equipa portuguesa não permitindo que a transição defesa-ataque fosse feita de forma eficaz.
Agora que cerca de nenhum dos escaladores que começou a ler este texto me está a acompanhar neste momento, posso debruçar-me sobre a importante questão: Qual a razão do ódio que os escaladores nutrem pelo futebol? Para mim existem vários motivos.

O jogo em si:

- Não é um desporto. Desporto envolve natureza e ar livre e mainãoseiquê. Ou seja, tudo aquilo que um escalador disfruta enquanto forra os pulmões a magnésio num muro pouco maior que o WC do centro comercial Martim Moniz.
- É uma estupidez. 22 gajos a correr atrás de uma bola. Onde é que já se viu. Dar cinco tralhos de seguida enquanto se tenta subir por uma rocha, quando se podia chegar lá acima pelo caminho à volta, parece-me uma alternativa bastante mais inteligente.
- É pra meninos. Homem que se preze já esteve com os pés dois metros acima da última protecção – ainda que tenha cagado a cueca no acto.

A bola:

- É redonda. C'um camandro. E teima em fugir das pernas desengonçadas dos escaladores que, por mais lolotes que façam na rocha, são incapazes de a dominar num campo. Escalador que se preze tem a coordenação motora de um hipopótamo.
- É pesada. Um verdadeiro teste às pernas tira-linhas do escalador que, não fosse a falta de coordenação motora do outro escalador que “defende” a baliza, seria incapaz de marcar um golo de fora da pequena área.
- Rebola. O escalador mais fanático acredita que o movimento de uma bola não obedece às leis da física - a não ser que estejamos a falar da teoria do caos.

Os jogadores:

- São gajos iletrados, que não dão uma para a caixa quando falam para as câmaras. Ao contrário, por exemplo, dos surfistas.
- São ricos e auferem salários criminosos. Ao contrário do Roger Federer, do Tiger Woods, do Michael Schumacher e de qualquer suplente da NBA ou da liga profissional de futebol/baseball americano.
- Têm um sentido fashion invejável que, diga-se de passagem, chega cem vezes para arrumar na gaveta as calças de licra de qualquer escalador dos anos 80.
- Têm gajas boas. Que o escalador, do alto dos seus cabelos desgrenhados, ar sujo e mãos rebentadas pelos entalamentos em fissuras, atribui desdenhosamente ao dinheiro. Mas que, para dizer a verdade, inveja com toda a força do seu ser (as gajas boas, não o dinheiro. Pronto, o dinheiro também).

Apesar de tudo, acho que é possível gostar de futebol e de escalada. Em tempos achei que se existisse um ranking combinado de ambas as modalidades eu seria o campeão. Mas depois descotaram os meus dois melhores encadeamentos à vista para quarto superior. Paciência. Resta-me o chinquilho. No chinquilho ninguém me bate.

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

o jantar dos frouxos

Uma vez que padeço de uma doença crónica de decotação, cujo sintoma se manifestou quando descotei a via "poios" para IV+, após encadeamento ao quinto ensaio (do dia), considero-me intimado.

Vai ser assim a modos que do c 'ralho.

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

a queda de um mito, mas não de um frouxo

"O rabeta foi lá em top". É desta forma injuriosa que nos comentários d'outro estaminé se comenta a ascensão de Alain Robert à Torre Vasco da Gama. Reconheço o ataque. Aguento a injúria. Engulo a falácia (epá, isto não soou nada bem). E, tal como Chris Sharm... aliás, Jesus Cristo, dou a outra face.
Ao que parece, o spiderman francês, como é conhecido pelo público em geral (ou "superman francês" como é conhecido pela redacção do jornal Público em particular, pelos vistos o superman também escala prédios, deve ser quando está impossibilitado de voar porque se esqueceu da capa na lavandaria, vá lá, não lhe chamarem "capitão américa francês" já não foi mau) foi impedido de escalar a torre a solo. Mas nem assim o intrépido escalador hesitou, aceitando o desafio de braços abertos e realizando a ascensão do edifício com a corda por cima.
A notícia rebentou que nem uma bomba na nossa comunidade. Braços ergueram-se para o céu, vozes bradaram "infâmia", gargantas clamaram por vingança. Até já ouvi escaladores a dizer, algumas mulheres incluídas, que não querem mais ter um filho de Alain Robert. Pela minha parte, foi com uma lágrima no canto do olho, mas uma lágrima de esperança, que assisti a este glorificante espectáculo. Porque na verdade, o épiderman francês sabe que a escalada em top é o mais parecido que existe com escalar a solo. Como alguém disse num determinado fórum de escalada, estou mais além, sou um visionário. Aliás, aproveito para anunciar que da próxima vez que for à Guia, vou solar a via verde!!

Não queria terminar sem enviar um abraço de apreço ao jornalista da SIC que a julgar pelas sábias palavras - "vamos assistir à escalagem do alpinista francês" - deve ter lido o meu blog antes de fazer esta reportagem. É bom saber que uma parte da classe jornalística ainda se documenta convenientemente antes de tratar estas matérias.

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

a frouxidão dos passitos

Não sei porquê, caio sempre nos passitos. A malta diz-me "ah, a via é uma cagada, só tem um passito ali a meio". E eu vou todo contente, chego à via e faço os passos todos, faço o passo antes, o passo depois, só não faço o passito. Normalmente o passito é uma cena do estilo agarras o monodedo que está no cú de Judas, epá, espera lá, monodedos no cú de Judas não me soa bem, pronto, o monodedo em cascos de rolha, nunca percebi o que são cascos de rolha, será que as rolhas têm cascos, se têm nunca os vi, e depois sobes os pés numas cacas e lanças ao bidedo bom. Claro que os passitos não são sempre assim, às vezes sobes em regletes de menos de uma falange enquanto tens os pés em cacas, para depois lançares ao bidedo bom. Ou ainda, agarras aquela lateral mesmo má e, pés na caca, lanças como se não existisse o amanhã para o bidedo bom. Em qualquer dos casos, acertas acima, abaixo, ao lado, mas nunca chegas a agarrar o bidedo bom. O que é uma pena, porque o bidedo bom é mesmo bom. Aliás, é esse bidedo bom que dá a cotação de dois graus abaixo do que a via realmente custa. Tudo porque o pessoal forte se agarrou ao bidedo bom e viu "eh, pá, isto é mesmo bom. Que cagada!"
As vias de passitos fazem lembrar-me as francesinhas, por causa do diminutivo. Um gajo pede um pastelinho de bacalhau e come-o de uma dentada. Chega a casa de um amigo e oferecem-lhe um bolinho. Ou uma bolachinha. E julga que a francesinha também é coisa para se comer de uma só vez (a descrição pode enganar, mas refiro-me à iguaria, não à cidadã de origem francófona). Um gajo até se arma em lambão e pede duas, a pensar "bom, avio já isto tudo, nem demora dez minutos" ou "ui, que vai saber tão bem". Volto a lembrar que continuo dentro do domínio da gastronomia. Depois quando chegam à mesa é que um gajo percebe que as francesinhas parecem francesonas. Afinal de contas, é coisa para andar de volta daquilo durante horas. No fundo, como nos passitos.

terça-feira, 7 de novembro de 2006

...

Noutro dia, um amigo aconselhava-me contra a tentação de me empenhar em demasia na escalada, em detrimento de outros prazeres (e deveres) da vida. Dizia-me ele que era importante saber colocar as coisas em perspectiva e não depositar todas as esperanças, energias e motivações unicamente na escalada. Porque se a escalada falha, se a motivação se vai… a verdade é que todos nós sabemos o que é o vício, aquele gostinho especial de tentar fazer a via, a parede, o cume… e aquela ânsia que nos faz esquecer rapidamente o sucesso de ontem e que faz a nossa vida girar em função do objectivo de amanhã.
Por paradoxal que pareça, a conversa acabou por incidir sobre a escalada como objectivo de vida. Apesar de tudo, não será legítimo devotar o nosso esforço a subir calhaus? Se outros trabalham para poderem gastar os fins-de-semana no Colombo, porque raio não poderemos nós trabalhar para a escalada de fim-de-semana? Neste breve período em que estamos animados, em que não somos simples matéria orgânica, haverá alguma razão que nos impeça de desfrutar ao máximo? Quando morrermos, o que levamos connosco? O que é mais legítimo? Passarmos a segunda metade da vida conduzindo um Mercedes SLK ou podermos dizer que subimos ao ponto mais alto de cada parede que encontrámos?
Hoje, quando estava a preparar-me para atravessar a rua, hesitei em apertar o botão de um semáforo. Veio-me à memória a criança que morreu em Lisboa, há alguns anos, depois de carregar no botão para que o semáforo passasse a verde. E lembrei-me de uma frase feita, dita numa conversa que tive há cinco dias com um amigo, sobre a infeliz notícia do dia anterior. O meu amigo, que não conhecia o Bruno Carvalho, disse-me “ao menos, morreu a fazer aquilo que mais gostava”. Na altura, pareceu-me um ponto de vista quase banal, até porque não estava capaz de ter uma leitura tão fria da situação. Mas agora, colocando as coisas em perspectiva, penso sobre qual será a forma mais estúpida de morrer: após realizar o sonho de anos, talvez de uma vida, mesmo que este tenha sido pago com o preço mais alto, ou electrocutado por um semáforo?
Muitos amigos meus que obviamente não escalam comentam a morte do Bruno apelidando o seu sonho como um acto louco, impensado, pura e simplesmente um desafiar da morte. Reduzir esta tragédia à condição da consequência natural de um acto gratuito e irracional é retirar todo e qualquer significado à vida do nosso companheiro. Sei que ele conhecia os riscos mas a sua vontade de sonhar falou mais alto. Porque ele sabia que só seguindo os nossos sonhos poderemos ser felizes. Apesar de conhecer o risco, o Bruno escolheu ser feliz.



Não te esqueceremos.