Com a proliferação do youtube, o escalador não vê mais nada que não seja filmes de escalada. Como se antes de escalar visse outros filmes que não fossem porno. Passamos, portanto, de filmes de gajas nuas para filmes de gajos nus. Com cordas.
De modos que me vejo obrigado a educar o povão escalador, fazendo um pequeno apanhado das últimas estreias cinematográficas que vos têm passado ao lado:
Star Wars
História de um bacano chamado Luke Parady Skywalker. Jovem com potencial, é apadrinhado pelo mestre Obi-Graham Kenobi, que vê nele a nova esperança da escalada e a única hipótese de sacar um projecto bem duro. Luke vai encadeando tudo o que lhe aparece à frente, com e sem sabre de luz. No entanto, a tentação do lado negro da força é grande… à medida que a dificuldade vai aumentando, o nosso herói terá de resistir a talhar umas presas nas secções mais duras de rocha. É aí que o malévolo Imperador, acompanhado do seu lacaio Darth Vader (um gajo que, apesar de só escalar em blocos - com talhados - anda sempre de capacete), constrói uma arma terrível, a furadeira da morte, com a qual pretende talhar bidedos (acompanhados da respectiva tickmark) capazes de transformar qualquer 9c num quarto grau. Conseguirá o lado bom da força prevalecer?
Indiana Jones e a grande cruzada
Como Indiana Jones, um escalador frouxo, se embrenha na demanda pelo santo graau. Esta demanda tem lugar na Alemanha, mais propriamente em Frankenjura: Seguindo o mapa desenhado no velho diário de seu pai, Indiana terá de decifrar o croqui e encontrar o local onde se encontra o santo graau, um oitavo super oferta que diz que se faz em meia dúzia de tiros. Tudo isto enquanto tenta escapar aos escaladores alemães, que cobiçam avidamente a first ascent da via. O filme explora também a relação conturbada de Indiana Jones com o seu pai. Juntos irão conhecer-se mutuamente e passar por mil perigos. No final do filme, e depois de encontrar um velho cruzado que lhe ensina o truque para passar o crux, Indiana Jones lá dá um tiro decente no projecto. Mas as peripécias ainda não terminaram: quando o intrépido aventureiro, todo esticado e com a espinha a sair-lhe pelo cú, já ‘tá a tocar a reglete de onde se chapa o top, o gatilho da última expresse abre-se. O nosso herói vê-se confrontado com uma difícil decisão; pode tentar agarrar a presa mas corre o sério risco de amandar um voo daqueles, que normalmente só é amparado pelo chão, 30 metros mais abaixo - os sacanas dos nazis eram forretas nas protecções. A voz sábia do pai de Indiana chama-o à razão, proporcionando um final de filme enternecedor, com a reconciliação entre pai e filho e a percepção que a demanda pelo santo graau está em cada um de nós (o que quer que isto queira dizer). Por outras palavras, Indiana acagaçou-se e destrepou.
Brokeback Mountain
Uma bonita história de amizade entre dois escaladores, que começa quando ambos passam uma temporada a trabalhar num refúgio e a escalar nas montanhas. Quando vem a chuva e as vias molham, ambos regressam ao quotidiano.
Apesar de casarem com as respectivas namoradas e prosseguirem com as suas vidas, ambos continuam a encontrar-se, disfarçando o real propósito dos seus encontros de escalada com a desculpa de que vão pescar. No entanto a mulher de um deles desconfia que a cana de pesca serve, na verdade, para chapar as protecções das vias mais duras. Face a esta suspeita, a teoria de que o marido é maricas ganha forma na mente da desgostosa esposa.
À medida que os anos passam, os compinchas apercebem-se que têm objectivos diferentes na escalada. Enquanto um acalenta o sonho de irem viver juntos para maple canyon, um fabuloso spot de escalada com protecções de metro a metro, o outro tem medo de represálias da comunidade, por estar sempre a escalar em top. E, de facto, o pior acontece, com um dos amigos a ser assassinado às mãos de três escaladores que o viram a encadear uma via com a terceira pré-chapada. O filme termina de forma triste, com a personagem principal lembrando saudosamente as tantas e tão belas trepadas que deram juntos.
O Rei Leão
Denominado King Lines no original, o filme narra o encontro de dois colossos maiores da escalada mundial e, simultaneamente, as nossas vítimas preferidas aqui no blog. Adivinharam: São Chris Sharma e Nuno Pinheiro.
A película (apesar de o ter visto em DVD achei que ficava bem usar este substantivo e, além disso, já me tinha usado “o filme” no parágrafo anterior) foca os problemas de dependência do personagem principal, que o obrigam a viajar por todo o planeta e a escalar as linhas mais difíceis só para arranjar um bocado de erva. Para os mais desatentos, lembro que estou a falar do Sharma. Entre escalada, trips de escalada e trips (sem escalada), as personagens usufruem da rodinha da paz e dançam o hakuna matata (cuja tradução livre "há cu na mata, tá?", ficava melhor no filme anterior, mas não se pode ter tudo).
O Rei Leão caracteriza-se por ter sido filmado ao melhor estilo David Linch, isto é, baralhando e confundindo o espectador, mercê da quantidade e duração dos monólogos do protagonista. Num emocionante final, Chris Sharma, mesmo depois de conviver com Dave Graham e Nuno Pinheiro, é bem sucedido no encadeamento de um duro projecto, sem aparentar qualquer sintoma de asa levantada.
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
É a cultura, frouxo! – parte II
sexta-feira, 28 de setembro de 2007
um ano a afrouxar
Afrouxar o quê?, perguntam os leitores. Ora, a corda quando escalamos à frente, respondemos nós. Nááá, tamos a gozar, a corda vai sempre tensa que nem uma harpa. E sim, connosco não há cá merdas, à segunda vamos logo à frente... quer dizer, até íamos, se fôssemos às vias uma segunda vez. Mas há tanto terceiro e quarto grau para experimentar, e nós retiramos tanto prazer de escalar à vista...
Foi, sem dúvida, um ano de frouxidão, que hoje lamentam... aham, comemoramos. Muita escalada, muita posta de pescada, muito visionamento de videos do Chris Sharma (mais até que o recomendável) e, sobretudo, muito pi. A todos os que insistem em vir cá, estão de parabéns. A demência dos nossos leitores é a nossa satisfação. Se, por acaso, abusámos um bocadinho e criámos algum atrito com alguém, as nossas mais sinceras desculpas. Para a próxima, seremos mais contundentes. Até sermos espancados, não iremos desistir.
quarta-feira, 13 de dezembro de 2006
mais vale um frouxo com a expresso na mão que um chorão a voar
Só para avisar os assíduos desta espelunca que a partir de hoje haverá outro escriba neste blog. Pensei em convidar o Chris Sharma para o efeito mas ele anda ocupado com as aulas da segunda classe. Além disso, esse gajo é forte e destemido, e do que este blog estava a precisar era um gajo com "uma percepção equilibrada e sensata da realidade". De modos que a partir de hoje teremos connosco o chorão. Assim, o blog continuará homogéneo, já que ambos os dois sabemos como manter o espírito da coisa. É só ir em top.
terça-feira, 31 de outubro de 2006
a religião dos frouxos
Chuck Norris' dick is so big, it has it's own dick, and that dick is still bigger than yours*
Grande coisa. O El Carallon também tem uma pila própria. E dois testículos. Aliás, se não fosse essa segunda pila não sei como é que a malta fazia o passo. Eu bem vejo o pessoal a esticar-se, mãos nas invertidas, a subir os pés e a agarrar-se ao pequeno pirilau, exprimindo de seguida uma profunda sensação de alívio enquanto procedem ao agarre do carallon propriamente dito. Depois é vê-los a amarinhar por ali acima, visivelmente satisfeitos, abraçando fervorosamente o dito cujo em todo o seu esplendor. E um gajo fica a pensar como é bonita a obra de Deus. Sim, porque estou plenamente convencido que a escalada é obra divina. Já repararam como as presas das Buracas do Cagimil são ergonómicas? Mesmo à medida para serem agarradas. Bem sei que os geólogos hão-de ter uma explicação. Que a sedimentação isto e aquilo, patati patata. Mas eu não acredito nessas coisas. Deus dotou El Carallon de um segundo falo com o propósito claro de permitir a escalada daquela via. Ainda por cima o Senhor demonstra criatividade e sentido de humor, permitindo ainda que cada um de nós expresse a sua verdadeira natureza através da maneira mais ou menos entusiástica como se agarra ao supracitado badalo.
Noutro dia estava a escalar em solo uma via na rampa dos crocodilos - aquela onde penduraram uma corda com nós para ajudar o pessoal mais frouxo a subir. Quando parei para sacudir os braços e olhei para trás, reparei que há lá uma via com uma secção que não tem absolutamente nada para agarrar. Essa secção termina num enorme buraco para onde a malta lança a partir de duas presas, mais de um metro abaixo. Ou seja, Deus Todo-Poderoso criou aquele buraco de encomenda.
É por estes motivos que estou a pensar seriamente em fundar uma corrente religiosa (se disser “seita” parece que estou a querer gamar dinheiro ao pessoal - não que não seja verdade mas o segredo é a alma do negócio) que assenta no princípio de que a escalada é o reflexo da existência de Deus. Vou fundar um santuário bem na base do El Carallon, onde todos possamos contemplar o milagre. Será local de peregrinações cuja entrada (o dízimo) reverterá a meu favor com a desculpa de que é para equipar vias e substituir topes. Mas há mais. Vou convencer o pessoal de que o filho de Deus é Chris Sharma. Vou convidá-lo, a troco de uma mesada em erva, para andar a apregoar a fé entre os escaladores. Com aquelas rastas, o ar meio zen e meio desalojado e de flauta em punho, parece-me que a malta o vai seguir como ao flautista de Hamelin. Ele será o meu fiel apóstolo.
* Gamado daqui
terça-feira, 10 de outubro de 2006
a frouxidão das lesões
Gosto de ter lesões. Em primeiro lugar porque só os gajos fortes se lesionam. Se um gajo se lesiona é sinal que esteve a apertar. Nunca veremos a seguinte situação:
-Epá, lesionei-me.
-A sério? Como?
-Tava numa pinça má, subi o pé direito para uma caca e lancei à morte a mão direita para uma reglette. Quando a finquei, o pé esquerdo saltou.Tentei aguentar a porta e ouvi um estalido. Foi o dedo.
-Ui, que mau... isso foi aonde? No IV+ que estavas a experimentar noutro dia?
-Não, tás parvo? foi no V ao lado...
Em segundo lugar, uma lesão favorece de sobremaneira a escalada de um frouxo. Não só o impede de escalar - e sem escaladas não há quedas - como permite conjugar o tempo verbal preferido dos frouxos - o imperfeito do conjuntivo. Tal pode ser visto na frase "Se não fosse a reglete daquele 8a, dava-lhe um tiro à frente!" No entanto, outros tempos verbais podem figurar em outras bacoradas do género: "Aquele 9c não, tem um bidedo que aleija" ou "Aquele V18 tem um passo longo que me força o ombro".
Claro que estas particularidades de algumas vias não vão impedir um frouxo como nós de apertar à morte. Só temos de escolher vias duras sem regletes, bidedos, pinças minúsculas ou aplats manhosos. Nada mais fácil: Sempre existirão vias duras em continuidade, com crux em puxadores (perto uns dos outros, claro, para não magoar o ombro em passos longos). Chamam-se quartos graus.
Ah, já me esquecia. Era só para avisar que mais um bocadinho e este era o primeiro post sem uma referência ao Chris Sharma. Foi por pouco.
quarta-feira, 4 de outubro de 2006
a frouxidão das opiniões
Desde que este blog apareceu uma pergunta tem percorrido o espírito da comunidade escaladora internacional: Mas afinal quem é este parvo? E há quanto tempo permitiram o acesso à Internet nos hospitais psiquiátricos? E qual o impacto deste blogue na comunidade escaladora? E porque é que, a contar com esta, já vamos em quatro perguntas? Não era só uma? Para dar resposta a algumas destas questões falámos com alguns destacados membros da nossa comunidade e pedimos-lhes que dessem a sua opinião sobre o que acham deste blogue. Reparem nesta frase: "a sua opinião sobre o que acham deste blogue". Fenomenal, hã? Não é para todos. E, sinceramente, nenhum dos meus entrevistados esteve à altura. Uns deram-me uma opinião sobre o blogue, outros disseram-me o que achavam do mesmo. Nenhum foi capaz de me dar a sua opinião sobre o que achava deste blogue. Frouxos.
Dani Andrada, escalador de profissão, diz-nos, enquanto encadeia dois 8c’s ao mesmo tempo com apenas um braço, que leu o blogue e gostou muito. Já Bernabé Fernandez, pastor de cabras na Andaluzia, foi mais longe e ofereceu o seu contributo, uma vez que se considera o frouxo-mor: “joder, sólo encadeno una ruta en cada cinco años!” Chris Sharma, tocador de flauta, também leu o blogue e achou-o “fantástico” e “ainda mais duro que fazer o ‘witness the fitness’ depois de encadear a ‘realization’ ”. Talvez não seja disparatado presumir que tal acontece porque, segundo o próprio, “não percebo uma palavra de português a não ser ‘gracias’ ”.
De qualquer maneira, uma vez que o referido bloco está cotado de 8c+ e a via leva a cotação de 9a+ (ora oito mais nove são vinte, não, que disparate, são dezanove) parece-me legítimo cotar este blogue como um 19d+. E não se fala mais nisso.
quinta-feira, 28 de setembro de 2006
a frouxidão dos blogs
Oh, não! Outro blog sobre escalada! - pensarão vocês.
Nada mais errado! - digo-vos eu.
Sim! Porque os blogs sobre escalada proliferam como marcas de borracha de pés de gato sobre a rocha de El Chorro, este blog pretende ser uma lufada de ar fresco na blogosfera nacional em particular e nos blogs portugueses sobre escalada em geral. Em vez disso, saiu esta amálgama de inutilidades. No entanto, não subestimemos este blog logo à partida: Foi preciso lutar muito para chegar aqui. O pensamento do autor, se é que ele existe (o pensamento, não o autor), foi aprimorado anos a fio pelo consumo selvático de derivados de cannabis sativa e visualização de entrevistas do Chris Sharma em doses letais para o homem comum (o homem comum é aquele que não consumiu selvaticamente derivados de cannabis sativa).
Aliás, se vieram aqui à procura de textos relacionados, ainda que remotamente, com escalada (neste momento, rio-me à gargalhada - onde é que vocês tinham a cabeça) não podiam estar mais enganados. Aqui escreve-se sobre a escalada na qual não se escala. Aqui só há escaladores de bancada, que opinam à segunda-feira sobre os encadeamentos do fim-de-semana. A malta deste blog descota tudo o que os outros fizeram mas usa corda, presa em top de 2 argolas, para subir as escadas do prédio onde mora. Ou seja, esta espelunca está para a escalada como a Ana + atrevida está para a imprensa. Com a agravante de que podem ter de apanhar com esta bodega mais de uma vez por semana.
Em suma, se percebem tanto do tema que julgaram possível que aqui se fosse escrever uma linha sequer que se aproveitasse sobre escalada, este é o vosso blog. Bem vindos à escalagem!!