sexta-feira, 9 de novembro de 2007
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
É a cultura, frouxo! – parte II
Com a proliferação do youtube, o escalador não vê mais nada que não seja filmes de escalada. Como se antes de escalar visse outros filmes que não fossem porno. Passamos, portanto, de filmes de gajas nuas para filmes de gajos nus. Com cordas.
De modos que me vejo obrigado a educar o povão escalador, fazendo um pequeno apanhado das últimas estreias cinematográficas que vos têm passado ao lado:
Star Wars
História de um bacano chamado Luke Parady Skywalker. Jovem com potencial, é apadrinhado pelo mestre Obi-Graham Kenobi, que vê nele a nova esperança da escalada e a única hipótese de sacar um projecto bem duro. Luke vai encadeando tudo o que lhe aparece à frente, com e sem sabre de luz. No entanto, a tentação do lado negro da força é grande… à medida que a dificuldade vai aumentando, o nosso herói terá de resistir a talhar umas presas nas secções mais duras de rocha. É aí que o malévolo Imperador, acompanhado do seu lacaio Darth Vader (um gajo que, apesar de só escalar em blocos - com talhados - anda sempre de capacete), constrói uma arma terrível, a furadeira da morte, com a qual pretende talhar bidedos (acompanhados da respectiva tickmark) capazes de transformar qualquer 9c num quarto grau. Conseguirá o lado bom da força prevalecer?
Indiana Jones e a grande cruzada
Como Indiana Jones, um escalador frouxo, se embrenha na demanda pelo santo graau. Esta demanda tem lugar na Alemanha, mais propriamente em Frankenjura: Seguindo o mapa desenhado no velho diário de seu pai, Indiana terá de decifrar o croqui e encontrar o local onde se encontra o santo graau, um oitavo super oferta que diz que se faz em meia dúzia de tiros. Tudo isto enquanto tenta escapar aos escaladores alemães, que cobiçam avidamente a first ascent da via. O filme explora também a relação conturbada de Indiana Jones com o seu pai. Juntos irão conhecer-se mutuamente e passar por mil perigos. No final do filme, e depois de encontrar um velho cruzado que lhe ensina o truque para passar o crux, Indiana Jones lá dá um tiro decente no projecto. Mas as peripécias ainda não terminaram: quando o intrépido aventureiro, todo esticado e com a espinha a sair-lhe pelo cú, já ‘tá a tocar a reglete de onde se chapa o top, o gatilho da última expresse abre-se. O nosso herói vê-se confrontado com uma difícil decisão; pode tentar agarrar a presa mas corre o sério risco de amandar um voo daqueles, que normalmente só é amparado pelo chão, 30 metros mais abaixo - os sacanas dos nazis eram forretas nas protecções. A voz sábia do pai de Indiana chama-o à razão, proporcionando um final de filme enternecedor, com a reconciliação entre pai e filho e a percepção que a demanda pelo santo graau está em cada um de nós (o que quer que isto queira dizer). Por outras palavras, Indiana acagaçou-se e destrepou.
Brokeback Mountain
Uma bonita história de amizade entre dois escaladores, que começa quando ambos passam uma temporada a trabalhar num refúgio e a escalar nas montanhas. Quando vem a chuva e as vias molham, ambos regressam ao quotidiano.
Apesar de casarem com as respectivas namoradas e prosseguirem com as suas vidas, ambos continuam a encontrar-se, disfarçando o real propósito dos seus encontros de escalada com a desculpa de que vão pescar. No entanto a mulher de um deles desconfia que a cana de pesca serve, na verdade, para chapar as protecções das vias mais duras. Face a esta suspeita, a teoria de que o marido é maricas ganha forma na mente da desgostosa esposa.
À medida que os anos passam, os compinchas apercebem-se que têm objectivos diferentes na escalada. Enquanto um acalenta o sonho de irem viver juntos para maple canyon, um fabuloso spot de escalada com protecções de metro a metro, o outro tem medo de represálias da comunidade, por estar sempre a escalar em top. E, de facto, o pior acontece, com um dos amigos a ser assassinado às mãos de três escaladores que o viram a encadear uma via com a terceira pré-chapada. O filme termina de forma triste, com a personagem principal lembrando saudosamente as tantas e tão belas trepadas que deram juntos.
O Rei Leão
Denominado King Lines no original, o filme narra o encontro de dois colossos maiores da escalada mundial e, simultaneamente, as nossas vítimas preferidas aqui no blog. Adivinharam: São Chris Sharma e Nuno Pinheiro.
A película (apesar de o ter visto em DVD achei que ficava bem usar este substantivo e, além disso, já me tinha usado “o filme” no parágrafo anterior) foca os problemas de dependência do personagem principal, que o obrigam a viajar por todo o planeta e a escalar as linhas mais difíceis só para arranjar um bocado de erva. Para os mais desatentos, lembro que estou a falar do Sharma. Entre escalada, trips de escalada e trips (sem escalada), as personagens usufruem da rodinha da paz e dançam o hakuna matata (cuja tradução livre "há cu na mata, tá?", ficava melhor no filme anterior, mas não se pode ter tudo).
O Rei Leão caracteriza-se por ter sido filmado ao melhor estilo David Linch, isto é, baralhando e confundindo o espectador, mercê da quantidade e duração dos monólogos do protagonista. Num emocionante final, Chris Sharma, mesmo depois de conviver com Dave Graham e Nuno Pinheiro, é bem sucedido no encadeamento de um duro projecto, sem aparentar qualquer sintoma de asa levantada.
quarta-feira, 3 de outubro de 2007
Gedeão da Frouxidão
Rocha Filosofal
Eles que não sobem não sonham
O que é esforçar-se na via
Não concreta e definida
Como outra via qualquer,
Como este granito cinzento
Em que ora subo, ora sento
Como esta calcite branca
De caprichosos torneados,
Como estes penhascos alados
Que em negro ruivo assomam,
Como estas rapinas que os tomam
Em brincadeiras de vertigem
Eles que não sobem não sonham
O que é grau, é chapa ou piton,
Tige forte ou perno bom
De aço A4 ou mero spit,
Do 8a+ ou da élite,
Numa eterna ascensão.
Eles que não sobem não sonham
Que é muro, é prumo, é buracos,
Diedro, fenda com tacos,
Bidedo, aplat, chorreira,
Crista, placa regleteira,
Pináculo dum esporão,
Contraforte, paredão,
Invertido, pinçamento,
Tendinite, dor e unguento,
Croqui, cordada, expresso,
Encadeamento, sucesso,
Que é filho de fracassos,
Vindos de sisal, arnês de laços,
Bota rígida do pioneiro,
Tentativa do primeiro,
Artificial, subprumo, atlético
em livre, sentido ético,
Encordamento, corrente,
De segundo, em top, à frente,
descensor, grigri, shunt,
mosquetão, fissura elegante,
pé-de-gato, queda, dinâmico
líquen de aroma balsâmico,
na superfície mineral
Eles que não sobem não sonham,
Que é o sonho que gera a via
que sempre que um homem sonha
o mundo estica e avança
como a corda colorida
entre as mãos de uma criança
Adaptação barrasca do poema Pedra Filosofal, In Movimento Perpétuo, 1956, de António Gedeão
sexta-feira, 28 de setembro de 2007
um ano a afrouxar
Afrouxar o quê?, perguntam os leitores. Ora, a corda quando escalamos à frente, respondemos nós. Nááá, tamos a gozar, a corda vai sempre tensa que nem uma harpa. E sim, connosco não há cá merdas, à segunda vamos logo à frente... quer dizer, até íamos, se fôssemos às vias uma segunda vez. Mas há tanto terceiro e quarto grau para experimentar, e nós retiramos tanto prazer de escalar à vista...
Foi, sem dúvida, um ano de frouxidão, que hoje lamentam... aham, comemoramos. Muita escalada, muita posta de pescada, muito visionamento de videos do Chris Sharma (mais até que o recomendável) e, sobretudo, muito pi. A todos os que insistem em vir cá, estão de parabéns. A demência dos nossos leitores é a nossa satisfação. Se, por acaso, abusámos um bocadinho e criámos algum atrito com alguém, as nossas mais sinceras desculpas. Para a próxima, seremos mais contundentes. Até sermos espancados, não iremos desistir.
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
quinta-feira, 20 de setembro de 2007
Campeonato Mundial de Escalada em Frouxavilés
Irregularidades na competição Mundial de escalada!
O vicepresidente da IFSC chama-se Alexander Piratinsky.
Exacto . Piratinsky!
E há mais… um tal de Patxi Arocena após uma trepada para o cerimonial da inauguração, foi recebido no chão com um caneco de sidra que brindou aos jovens de idade escolar que preenchiam as bancadas que é como quem diz, que no fim de uma sessão de escalada bebem-se copos… Ora onde é que já se viu isto?!
Então vaiam lá ver, se não é assim!
(artigo "Notícias - Empieza la fiesta, ceremonia de inauguración")
quinta-feira, 30 de agosto de 2007
o aumento de frouxidão e a inflação do prestígio das vias: um estudo comparativo
If the routes stayed the same, but the gradings were suddenly all switched around, it would be interesting to see which routes people would be trying.
Jim Holloway
Cá está. Não é só o LA que sabe fazer citações. Eu também sei. E esta é muito boa. Por acaso gamei esta dele. As citações demonstram que um gajo é inteligente. Que tem cultura geral. Para quem não sabe, a cultura geral mede-se pela quantidade de citações que um tipo diz por dia.
O problema é que, normalmente, quando se usa uma citação, é suposto o texto não ter nada a ver com a dita. O propósito da mesma é o de ganhar uma discussão, ou seja, arrumar com o outro gajo, qu’ele até fica a pensar “ena pá, com essa é que me lixaste”. E se a citação nada tiver a ver com o assunto em causa, melhor ainda, que é da maneira que o deixamos ainda mais confuso. Por exemplo, esta foi gamada de um texto sobre aves. Já na altura não percebi o que tinha a ver. Se calhar as aves só vão a uma via por causa do grau. Será que as aves mais fortes só nidificam em oitavos?
Acontece que a citação em causa até tem a ver com este post, mais concretamente com o prestígio. Às vezes, parece que as vias têm dois graus: um de dificuldade e outro de prestígio. Curiosamente, o de prestígio é sempre igual ou superior ao de dificuldade. Nunca é inferior. A não ser que a via seja de placa. Não há nada mais baixo que o grau de prestígio de uma placa. Melhor dizendo, não existe nada que arruíne mais a reputação de um indivíduo que fazer uma via de placa. Quer encadeie um 8a de placa, quer caia num 6a de placa. Que, no fundo, acaba por ser o mesmo.
O grau de prestígio é tão importante que chega a afectar a própria qualidade da via. Se esta for um 7a, assim pró fácil, a via é um espectáculo, fácil de sacar, só presa grande. Se alguém decide gritar “o rei vai nú” e decota a via, esta passa de imediato para um 6c+ merdoso, passo mitrado sem jeito nenhum. Por isso é que as vias lá fora são boas. O grau de prestígio é enorme e o encadeamento à vista chove como cães e gatos. Tudo a experimentar aquela via dura mas boa, só porque no croqui vem um número porreiro:
- Ouve lá, é mesmo 7a?
- Sim, é 7a, presa grande, pouco inclinada, fácil de sacar à vista, é boa para ti.
- Mas é 7a?
- Sim, é.
- Mais duro que um 6c+?
- Eh pá, isso já não sei, se calhar não. Fiz à segunda. E nunca fiz sequer 6c+ à segunda. Aliás, acho que nunca fiz 6c+... Mas diz neste croqui com pelo menos 20 anos que é 7a, e o croqui não falha.
- Ah, bom, então vou lá!!
Ora eu acho que devia ser justamente o contrário. Tipo,
- Lá vai o fulano de tal, aquele gajo que fez agora um oitavo.
- A sério? Não dava nada por ele. Alguém o viu a fazer o oitavo?
- Vi-o eu a sacar aquele 6b manhoso à vista.
- Fosga-se, é mesmo forte!! Respect!!
Acrescento que acho até extraordinário como a malta se orienta tão bem a chamar as vias pelo grau (normalmente o de prestígio, claro). O nome, obviamente, é um mero acessório. Inclusivamente, até parece que houve aí uma polémica com um gajo que partiu umas pedras coladas na base das vias, com o nome das mesmas. Devo dizer que sou contra as pedras com nome na base das vias. Para quê o nome? Assim as pedras não dispensam o croqui! Quem lê o nome da via na sua base fica sem saber o mais importante, que é, obviamente, o grau. Por isso, acho que se deveria pôr apenas o grau na base das vias. Ocupa muito menos espaço, logo o impacto visual é menor. Para que interessa o nome? Se se falar no nome de uma via, ninguém sabe onde fica. Já pelo grau, toda a gente vai lá. E se for a puxar para cima, então é uma verdade absoluta e intocável. Mesmo que se faça a via com pegue e meio, apesar de nunca se ter feito aquele grau na vida. Mas se a via só sair ao vigésimo, a coisa pia mais fino, “qu’eu já fiz este grau à vista”. Não pode ser. Esqueçamo-nos que isto é uma rocha nova, um estilo novo, uma técnica nova, uma via nova (i.e. sem pinta de magnésio) e subamos o grau, “qu’eu não tou aqui para me rebentar em 6b’s”. Ou então, cagamos d’alto na via e vamos para aquele 7a vertical com presa à mão cheia de meio em meio metro.
terça-feira, 21 de agosto de 2007
sexta-feira, 17 de agosto de 2007
Laura Frôxa & Marta Xorona em entrevista a Nuno Pinheiro
Laura Frôxa e Marta Xorona conseguiram este exclusivo usando de vários ardis, incluindo o próprio desconhecimento do visado e a colocação de palavras na sua boca, que este nunca proferiu.
Trata-se de uma entrevista completamente inédita, um furo jornalístico que nenhum outro órgão de comunicação social jamais conseguiu deitar a mão e que aqui se transcreve fielmente distorcida.
Para quem não conhece, eis aqui alguns dados biográficos e curriculares:
Nuno Pinheiro nasceu em Lisboa, a 16 de Fevereiro de 1976. Mede 1,78m de altura e pesa cerca de 65 Kg. Começou a escalar há uma dúzia de anos (1995) e sempre se manteve próximo dos núcleos mais fanáticos e activos da capital.
Ao longo do tempo em que é praticante, tem viajado por toda a península e nos últimos anos também por outros continentes e destinos exóticos, sempre em busca de novos locais de escalada, exibindo, por isso, sinais exteriores de riqueza e duma estrela de boa fortuna acima do normal.
7c, 7c+ e oitavos “é aos molhos”, sem esconder e sem pavonear os seus feitos.
Regressou, à relativamente pouco tempo, de umas “férias” abusivamente longas do outro lado do oceano e retomou o seu trabalho, no ramo da informática, explorando como pode os tempos livres para escalar e equipar novas vias.
Tem sido, por isso, um dos escaladores nacionais mais prolíficos e activos dos últimos tempos
LauraFrôxa&MartaXorona: Nuno, compreendes que por esta entrevista ser totalmente fora do teu conhecimento e consentimento, isto nos deixa com um enorme poder e liberdade de te pôr a dizer as maiores barbaridades, e tu não podes fazer nada quanto a isso?
NP: Sim.
Lf&Mc: E concordas com isso?
NP: Sim.
Lf&Mc: Regressaste há pouco de uma grande viagem às Américas. Tencionas contar ao público escalador como correu essa experiência?
NP: Essa é a minha ideia. Já tenho alguma coisa agendada lá para Norte do país. Em Lisboa ainda não está nada previsto.
Lf&Mc: Então podes adiantar alguma informação quanto à apresentação do Norte?...
NP: Vai decorrer com o apoio da Loja Inchaços Naturais do Porto, em Outubro, e a seu tempo, serão divulgados mais detalhes.
Lf&Mc: Diz-se que és a antítese do escalador de “talento genético”, e tiveste de “subir a pulso” com bastante esforço e assiduidade, para crescer e chegar onde hoje chegaste. O que te leva a investir tanto da tua vida nas viagens e na escalada?
NP: Faço o que mais me motiva na vida. Há alturas em que estou mais virado para equipar, outras em que quero é sair e ir conhecer outras culturas, outras pessoas, frequentar “Círculos de Pacificação”, sempre a explorar novas escolas de escalada e novas vias, de dificuldades maiores … para depois decotar.
Lf&Mc: A decotação é realmente um traço do teu carácter como escalador. Em alguma altura ponderaste o recurso ao apoio especializado… alguma ajuda… terapia… alguma coisa?
NP: Não. Nada disso funcionou comigo. Só se for a “terapia da broca” (Um 7c que também já decotei, para que conste).
Lf&Mc: Mas não achas que insistir em promover volatilidade do grau desinforma os potenciais escaladores?
NP: Normalmente tenho alguns cuidados. As coisas não são feitas de modo irresponsável. Sigo um método que se baseia em aguardar que a pessoa encadeie a via ou que a esteja a beira de a encadear, para então aparecer e, só então, decotar à bruta, sempre com maior respeito e cara de pau. Algumas pessoas reagem mal… Além disso não sou o único a decotar. Na verdade, o processo de decotação começa antes, pelas mãos de mais um ou dois escaladores. Se por exemplo uma via nova surge proposta de 8a+, há um decotador que a duras penas lá consegue encadear. Como é da praxis, traz a via imediatamente para 8a, logo, o seguinte escalador, que até já viu a via, do chão, ao tomar conhecimento que o outro a encadeou, decota instantaneamente para o patamar imediatamente abaixo, já para evitar que um pirata qualquer se lhe antecipe. É entretanto que apareço eu, que, ao receber um telefonema a dar-me conhecimento destes ocorrências, decoto quanto antes, logo ali e pelo telefone. Não vá aparecer alguém a tentar ultrapassar-me também a mim. É que, as oportunidades têm de ser agarradas e há um limite muito sensível na decotação. Não é possível decotar indefinidamente uma via. A arte está em decotar só até aquele ponto preciso em que já começa a roçar o absurdo e as pessoas começam a olhar à volta à procura de paus e pedras. A via, ao final, rondará o 7c ou mesmo, 7c+frouxo, consensual... Se bem que às vezes… decoto é mesmo à toa!
Lf&Mc: Mas, e quando te deparas com uma via que te leva dezenas de tentativas para encadear, será que não é de reconsiderar a cotação atribuída?
NP: Não sou eu sozinho “quem faz o grau”. Eu sou apenas um peão nesta engrenagem decotadora. O Capi Di Tutti Capo é outro. Neste meio, encadear e recotar uma via já decotada, seria sempre interpretado como uma fraqueza muito maior do que o facto de não ter sequer encadeado ainda a via. Não encadear ao 50º pegue é absolutamente irrelevante, decotar sim, é vital e inadiável. As pessoas em geral, ao verem-me dar tiros atrás de tiros, acabam por atribuir uma mística de inacessibilidade à via, pensam que “se eu que sou eu” ando ali aos papéis então “o melhor evitar aquela via”, e assim, preservo as vias de ficarem demasiado frequentadas. Já repararam que em Portugal há muito menos vias polidas do que nos países vizinhos e filas para escalar?
Lf&Mc: Nuno, muitas pessoas reparam que te queixas constantemente de “não estar em forma” ou de que a via tem passos “duros demais” mas acabas sempre por os resolver. Isso não faz de ti, ainda que remotamente, um parente da Marta Xorona?
NP: Também não é tanto assim. Se alguma vez dei a entender isso deve ter sido nalguma fase em que estive seriamente lesionado e em baixo de forma. Já houve alturas em que não conseguia fazer mais do que 7c. Num desses casos, foi uma fase particularmente difícil. Numa altura em que andei a equipar uma via de quase 30 metros, uma linha de regletes pequenas e passos ligeiramente um pouco demasiado bastante longos, em Sesimbra, seria sem dúvida um bom 7c, mas como na altura estava com bastantes dores nos cotovelos, só consegui encadear a via e já não cheguei a tempo de a decotar, porque alguém o tinha feito antes de mim. Talvez um dia destes dias reveja o caso particular desta via, se me aperceber que entretanto há alguém interessado em sacar-la, e reajusta-se então (Os 40 bate-chapas, Dente de Leão, 2006).
Lf&Mc: Mas tu andas sempre lesionado… já corre por aí que serias um bom candidato a Tutankamon da escalada portuguesa…
NP: Tenho feito por isso, embora sem grandes resultados… Tenho tentado cativar patrocínios junto das Para-farmácias. Sou um desgraçadinho e só me dou por satisfeito quando vir o meu busto no Campo dos Mártires da Pátria.
Lf&Mc: O que fazes quando não estás a escalar?
NP: Se não estou a escalar é porque estou a “pendurado como um presunto”, para apurar o fumeiro.
Lf&Mc: Quando escalas ao limite (e não só) é bem conhecido de todos a tua técnica gestual do “frango no assador”, ou seja, as “asas” bem afastados e apontadas para cima, postura a que os americanos chamam de “Chickenwing”. Como explicas esta tendência?
NP: É verdade. Não há via dura que seja realmente dura se não revelar o galináceo que há em nós. Se me apanho numa via nova em que não tenha de ferrar os alicates e baixar as orelhas à altura dos ombros… aí, meu amigo… a via salta logo um número inteiro para baixo… mas é que nem vale a pena argumentar!
Lf&Mc: E nos próximos tempos? Que projectos tens, que sonhos acalentas?
NP: Há muita coisa para fazer. Ainda tenho um punhado de projectos pendentes na zona de Lisboa. Na maior parte são coisas duras que não sei se alguma vez vou conseguir sacar. Sou demasiado fraco e débil. Sou um miserável que anda sempre de férias e constantemente a sofrer de graves encadeamentos em vias lixadas. Tenho também grande vontade de explorar mais a zona de Sagres, de onde surgirão, sem dúvida, das melhores vias de dificuldade em Portugal. Algumas com grandes distâncias entre chapas onde finjo que passo demasiado medo e encadeio na mesma, porque nem mereço o ar que respiro e até parece que os resultados me caem nas mãos sem eu estar à espera, rais-m'apartam...
Lf&Mc: Tens seguido uma trajectória de polivalência nas várias disciplinas que envolvem escalada em rocha, no entanto, fazes uma excepção com a competição, apesar de te encontrares entre os escaladores nacionais com melhores resultados a nível de “dificuldade”. Isso torna-te de alguma forma um bocado maricas?
NP: Sim. Na verdade a competição tem várias lacunas a meu ver. Em competição só tens uma única oportunidade de encadear a via, ou um tempo muito limitado para resolver um só problema de bloco. Este não é o meu perfil. Eu gosto de fazer render o peixe, e uma boa via ou um bom bloco tem de levar pelo menos uma quinzena de pegues. Não é que não conseguisse efectivamente resolver à primeira, mas tal como disse, há que fazer render o peixe e, finalmente, após uma sumária e sisuda ponderação… decotar “como Deus manda.
Outra grande limitação da competição é o carácter efémero das vias. Todas acabam por ser desmontadas. Uma boa decotação distingue-se por perdurar no tempo e na forma como ilude o maior número possível de candidatos ao encadeamento. Se a via desaparece, desaparece também com ela o efeito da afronta, o chamado “Sandbagging”. Admito que se, no futuro, se resolvessem estas condicionantes, a competição poderia contar comigo, até porque, imagino que estando junto com os outros decotadores de topo, nacionais, seria interessante começar por volta das 10h00 da manhã, com uma superfinal de cotada em 8a+, ir ao longo do dia fazendo os devidos ajustes, de maneira que o ultimo atleta que fosse chamado do isolamento encontraria a via muito mais “acessível”, digamos, algo à volta do 6a+, que é, nem mais nem menos, o que actualmente se usa nas competições a sério.
Lf&Mc: Só mais uma questão para terminar: Quando é que deixas de ser pendura de blogues?
NP: O que se passa nesta altura é que agora já tenho vergonha de abrir um blog para mim porque seria o último escalador a ter um, e logo eu que não gosto de ficar em último nem a feijões. Acima de tudo, também, porque neste mundo internautico ainda falta uma escala pela qual eu possa começar a decotar os blogs… Por exemplo, este vosso passava já para IV, vá lá um IV+ por ser de “começo-sentado”…
Lf&Mc: Em nome da equipa do Escalagem damos-te os sinceros parabéns e desejamos-te as maiores felicidades. Obrigado por estes momentos.
Expresso agarrada por
Chorão
às
14:31
6
em top
Marcadores: Entrevistas, LFeMX, Nuno
quinta-feira, 16 de agosto de 2007
As frouxas
Então vai ser assim:Agradeçam ao vosso miserável browser pelo azar de voz ter trazido até aqui e fiquem desde já avisados de que, num qualquer dia ó calhas, ainda vão ter que gramar com umas novidades.
Parece que doravante é capaz de aparecer por este estamine uma colaboração, ocasional, do género feminino.
Escusam de começar já com suposições parvas para tentar adivinhar quem de nós se submeteu à cirurgia, porque não se trata de nada disso. Apenas vamos ter visitas e portanto, comportem-se e moderem o linguajar nos comentários e palpites que deixam em top, que isto já não é “a da Joana”.
Quanto à concorrência bloguista, parece que já os estou a ver com os teclados esmurrados ao saber de mais este nosso golpe sexista na corrida aos números de visitas.
Uma baixeza de golpada de génio só comparável ao retroequipamento de vias ultimamente em voga.
Já se sabe que isto basta acenar com uma vaga e insidiosa sugestão de que vai haver mulheres e cordas... e deixar a imaginação do leitor trabalhar por nós...
Agora vou olear o contador de visitas, que isto promete.

sexta-feira, 27 de julho de 2007
resistência à frouxidão (parte II)
ouve-se por aí, nas ruas, dizer que já há se organizaram facções de inspiração fundamentalista, como reacção aos surtos de resistência contra a frouxidão. na verdade até já me cruzei com alguns deles numas visitas acidentais a umas falésias. se a memória não me atraiçoa, um desses encontros foi algures no algarve, e cabe-me relatar o encadeamento á vista e á flash de vários V+, 6a's, 6a+... vias grandes, vias pequenas, 1 largo, 2 largos... tudo!
Para mim a via mais significativa desta nossa vaigem foi a "Iceberg", na Rocha da Pena, Algarve. Um 6a+/b brutal com uma linha super estetica, com regletes, puxadores, invertidos, escorrencias... c/ distancias entre expressos de fazer corar o diabo (a 1ª plaquete devia tar +/- a 5mt do chão ). Nao me saiu á primeira. Aliás deu p voar um bocadinho devido a um calcanhar no sitio errado, mas deu-me um goso tremendo sacar esta menina á vista . E duma outra vez, em que consegui sacar á 2ª tentativa e á vista a via "Vaselina" um 6a+ curto mas intenso, do sector Penedo Norte .
Normalmente não perfilho de posições de extremos, mas não escondo prazer em observar como as gerações emergentes prosseguem no bom caminho e na redefinição do melhor estilo.
É um deslumbre observar como os nascituros de 80 exploram novos limites, quer seja no campo da escalada clássica , quer sejam primeiras ascensões em terreno novo:
muito bem , assim é que é , isso mesmo, dá-lhe ! Venga !
Expresso agarrada por
Chorão
às
14:37
4
em top
Marcadores: (i)moralidade, achados, Chorão
a resistência à frouxidão
devido à reduzidíssima área da ilha e com os seus naturais ajustes às limitações espaciais, os teclados dos computadores não dispõem de comutador das maiúsculas, o que é compreensível.
peço por isso e desde já desculpas a todos os leitores e professores de português, por esta redacção.
a este confim chegou um boato, muito vago, de que estaria em curso a organização de um comando separatista de resistência à frouxidão, constituído por amazonas lusas.
segundo dizem, já houve um incidente que resultou no encadeamento de uma via de oitavo grau, sem qualquer aviso prévio.
nada que eu não conseguisse fazer também. a via em causa também eu já estive quase a encadear, só que nesse dia, devido a umas confusões a localizar a linha, acabei por sacar a segunda à direita dessa, inadvertidamente. não era bem o que eu queria e por isso não quis correr mais riscos.
actualmente só escalo no meu teclado porque descobri que consigo dactilografar 8a muito mais depressa do que consigo encadeá-lo.
esta coisa de quem encadeia primeiro e podia ter encadeado antes recorda-me, duma situação similar à que já foi relatada por um amaricano, fredrick a. weihe, e que já se passou comigo também.
então foi assim:
eu e dois amigos, fomos escalar. queríamos acrescentar à caderneta de encadeamentos, três linhas emblemáticas duma escola local, de seus nomes: “agora”, “a seguir” e “depois dessa”. os escaladores eram isabel i. ela, zé e. alguém, e eu.
alguém perguntou se ela queria abrir a via agora. ela respondeu que não, que queria abrir a seguir e eu perguntei, agora? disse-me que não, que ela ia subir a seguir depois dessa, e eu fiquei confuso e tentei saber se alguém queria escalar a seguir. ela não queria, mas foi, só que não era agora. eu disse que estava tudo bem por mim, porque eu queria escalar agora e ela podia escalar a seguir e alguém vai escalar depois dessa. no entanto ela estava a preparar-se para subir agora, e eu disse ei! alguém disse que ela podia subir a seguir e disse que não ia, então ela disse: quem vai escalar a seguir? eu escalo agora, e ela escala depois dessa. ficou então decidido que alguém tinha de escalar, e assim fizemos.
segunda-feira, 23 de julho de 2007
Nós não somos frouxos, apenas usamos pó de talco!!
Vi, há dias, uma reportagem da sic mulher. Antes que comecem com merd… com coisas, há que dizer que era sobre escalada. E não é que estivesse a ver a sic mulher nem nada disso, só vi porque estava neste blog. Já sei o que estão a pensar: “O que faz um gajo como o frouxo a ver um blog sobre escalada?” Não vamos por aí, todos têm os seus momentos de fraqueza. Adiante. A peça até está bem elaborada (sempre é mais interessante que a Oprah) e mostra um certo empenho em divulgar a modalidade na sua vertente mais positiva, mas vocês não vêm a este blog aqui para nos ver a tecer comentários elogiosos ao que quer que seja. Vocês gostam é de sangue. E como nós também só estamos bem a achincalhar, vamos a isso.
Vejamos então a primeira frase: “O magnésio não é pó de talco” O interveniente percebe de pó de talco. Ninguém lhe dá lições sobre pó de talco. Rocha não é rabinho de bebé. Rocha, magnésio. Rabinho de bebé, pó de talco. Estamos entendidos.
Passemos agora à segunda frase: “É um pó que serve para secar a humidade das mãos e, dessa forma, reduzir o atrito”. Hummm.... reduzir o... atrito? Mmmmm... Pois... Confesso que aqui me surgem algumas dúvidas acerca dos conhecimentos do escalador. Uma hipótese é a de que, apesar de perceber de pó de talco, não percebe nada de mecânica clássica. Porque se há coisa que sirva para reduzir o atrito, essa coisa é mesmo pó de talco. A segunda hipótese é a de que não percebe grande coisa de escalada. É que da última vez que experimentei escalar, disseram-me que um dos truques da cena é usar a força do atrito (assim de repente lembro-me da borracha dos pés-de-gato) para vencer a força da gravidade. Queria, no entanto, deixar claro que esta segunda hipótese é absolutamente fantasiosa. Até porque aqui os únicos que não percebem de escalada e têm, consequentemente, o direito de proferir barbaridades desse quilate, somos nós. Ficámos ofendidos e tudo.
Talvez seja muito mais simpático admitir uma terceira hipótese... a de que, se calhar, não percebe muito acerca do significado do verbo "reduzir". Sim, esta hipótese não faz muito sentido. Mas escalar em atrito também não. Sobretudo se forem vias de aplats.
quarta-feira, 11 de julho de 2007
A frouxidão do plágio
Para todos aqueles que tiveram o bom senso de não vir ao nosso blog nos últimos dias, passo a explicar: O escalagem sofreu um insidioso plágio por parte de um personagem que, numa tentativa disparatada de ter graça, nos surripiou os textos e os colocou, mal e porcamente, no contexto de um bar. Por muito que nos honre ver a nossa humilde espelunca elevada à categoria de tasca de terceira, repleta de marinheiros de faca afiada, mulheres de má vida, cerveja fria e sangue quente, é de convir que algumas… aham, “adaptações”, vamos chamar-lhes assim, dos textos não eram propriamente brilhantes. Se a base de “inspiração”, vamos também chamar-lhe assim, já era um pouco confusa (resultado das mentes tortuosas e altamente baralhadas dos seus autores) imaginem ler posts do escalagem em que a palavra “escalada” é substituída por “cerveja”. Não faz sentido… embora acredito que haja alguns leitores para quem a coisa soe às mil maravilhas.
Bom, o que interessa é que poderíamos berrar aos quatro ventos “aqui d’el rei”, poderíamos insurgir-nos contra a corja aviltante que nos rouba as ideias e as palavras, poderíamos denunciá-lo, arrastar o nome dele pela lama e expô-lo ao ridículo, poderíamos até empreender uma cruzada até ao norte do país, mais concretamente a Viana do Castelo, munidos de um camalot #5, até descobrir o PC por trás do qual se encolhe a criatura de fraca inspiração e ainda menor discernimento, cujo nome, já agora, só naquela e sem qualquer espécie de ressabiamento, é Diogo Moreno. Mas nós somos pessoas elevadas. Somos melhores que isso. Esperem, perceberam mal, também não vamos usar um camalot #6. Somos melhores noutro sentido. Em vez disso, lamentamos o infortúnio do desgraçado que, qual meliante que arranca cobardemente a sacola de uma criança para vir a descobrir que o produto do seu furto não é mais que um rascunho de apontamentos, umas meias sujas da educação física e um ovo podre que sobrou de um almoço algures do ano passado, teve o azar de não encontrar um blog melhor que o nosso para plagiar. É fácil de imaginar que o resultado não podia ser mais desastroso. Tenhamos, por isso, compaixão. A triste sina do nosso desafortunado gatuno terá sido o facto de se cobrir de ridículo de cada vez que publicava no seu blog um dos nossos textos. Haverá pior sorte?
No meio disto tudo, só é pena que, assim que o plágio foi descoberto, o respectivo blog tenha sido exterminado pelas mãos do seu autor. Lá se foi a única prova que alguém nos lia. Enfim, resta-nos o peito inchado de orgulho. Ser plagiado não é para todos. Sobretudo quando não se é lido pela Clara Pinto Correia.
Expresso agarrada por
frouxo
às
19:55
4
em top
Marcadores: (i)moralidade, achados, Frouxo




