Quem é que não conhece um bom Chorão?
O Chorão é daqueles espíritos que nunca estão satisfeitos.
A capa de modéstia serve apenas para manter um estatuto pária e descomprometido em relação aos cromos de topo, só para não se notar muito quando o pico de forma acabar de forma dramática, quebrando o cristal de encantamento dos bons resultados episodicamente registados e revelando desse modo a verdadeira essência de frouxo miserável.
Um frouxo sazonal. Mas um genuíno frouxo, não haja dúvida.
O Chorão é aquele que ainda agora chegou à falésia e já se está a lamuriar pelo seu alegado estado depauperado de forma física, as mazelas do treino, as lesões lesivas e as influências sociopolíticas do clima sobre a capacidade atlética do momento.
É aquele que zomba do povo humilde e trabalhador, aquecendo nos seus projectos para o dia, saltitando nas ínfimas presas, aproveitando os repousos para “não repousar” entre gemidos e grunhidos mal-fingidos, que acompanham o inexistente “estado-limite” de esforço.
As expressões faciais e vocalizações (quando as há) soam a falsete, tudo parte duma capa de fingimento hiperbolizado à saturação, quando na verdade, todos os sistemas músculo-hidráulicos dão um show da mais suspeita fluidez vinda duma carcassa de hominídeo, alegadamente, acossada dos maiores achaques e moléstias, supostamente.
Uma auto-estima que se apresenta tão baixa como as mais baixas, nem o cão mais lazarento e escrofuloso convenceria tão bem, não fosse aquela mecânica mágica de membros apanhar tudo o que há e não há, nas vias mais reputadas, sem um suspiro, como quem apanha cerejinhas à altura dos olhos. O canastrão parece que escorrega para cima, sem o mínimo ruído de respiração, ou já agora, de qualquer outro sinal vital que seja.
É esse mesmo. O Chorão. Na verdade o Chorão não passa de um frouxo “refinado”.
A auto comiseração é o seu habitat. Estratega da própria imagem usa habitualmente a metáfora neurobalística.
Como adepto da neurobalística, e a sua arma favorita é a fisga. Sim, uma fisga como daquelas dos putos, mas imaginária. Mero recurso de estilo.
Fixa-lhe o cabo numa via prestigiante (pela aura mística ou pelo grau), apoia-se no meio dos tirantes elásticos e começa aplicar-lhes a devida tensão, submergindo-se em lamentações cabisbaixas e caretas desesperançadas do encadeamento. E vai esticando, em profundidade, os elásticos na directa proporção dum chorrilho de comiserações à volta das últimas desventuras psicomotoras que o atormentam.
Espoja-se e enterra-se figurativamente no pó do chão escavando incertezas pouco incertas, bem nutridas de ladainhas de dores e terrores infindos, na antevisão do “além” dos passos (de caca) da entrada.
Nesta altura, a mesmíssima via já adquiriu um valor bem acima do barril de Brent e o escalador começa a recolher os apoios sentidos da plateia. (Pelo menos os apoios daqueles que não conhecem já o intérprete… e às vezes, mesmo dos que já o conhecem).
… E estica ainda mais os elásticos… Recordando um longo historial das suas cicatrizes “de guerra”. Se não chegarem as próprias cicatrizes, toma de empréstimo os fracassos dos autores das tentativas anteriores. Sim, esses é que eram uns valentes, dignos de toda a ordem de elogios (que o “chorão” recolherá mais tarde).
… e os elásticos da fisga esticam, e esticam, e esticam… até quase à ruptura (da elasticidade e contenção do auditório de olhos já marejados de lágrimas).
Neste momento ou se solta da fisga e aceita as consequências ou continua incrementar o chorrilho de queixinhas, rebentando o elástico da credibilidade e cai estatelado no ridículo arriscando-se a perder as indispensáveis atenções da assistência.
Levou ao extremo da expectativa, a atenção complacente de todos, e vai arrastar esse sentimento a cada passo que dá em direcção à muralha infranqueável (são só 6 chapas num bordilho, mas agora parece o FitzRoy).
Até ao último momento antes de começar a escalar, paira no ar uma atmosfera que apela intensamente à misericórdia mais sentida, ouvem-se violinos, e um coro de vozes cristalinas da “Cantata per una infanta defunta” ecoa na mente de todos.
Um ambiente de comiseração do mais pungente e complacente. Todas as almas estão em farrapos. Afinal, trata-se da criatura terrestre mais sofrida e moribunda, cuspida e escarrada pela vida, e que apesar de tudo, no estertor das ultimas forças, investe tudo na ascensão de uma via. Alguém que se ergue nos pés de gato “arruinados” (recauchutados há uma semana) carregando dependurados do arnês todas as agruras duma ”Retirada de Caporeto”.
È então que…
… ZÁS!!
Libertam-se os elásticos.
Sai disparado em direcção ao top.
Há quem vá gritando as presas boas.
Não as ouve.
Agarra ao lado… hoje é tudo bom.
Não rectifica nem corrige um movimento que seja.
É que, por acaso, hoje é tudo bom.
O segurança quer acabar de comer a sandes.
Não pode.
Tem de dar corda desalmadamente, porra!-porra!-porra! dá!dá!dá!dá!
O “animal” mal pára nos descansos.
Fica por demais óbvio, que a via está bem abaixo das possibilidades do escalador – e por isso só cabe deduzir que se trata de um frouxo oculto. “Filho de frouxo sabe afrouxar” não se expondo facilmente a testes mais exigentes. Também não é parvo!
È um festival da maior efusão! Todos sentem que um pouco de si chegou ao top
Esfrega-se bem os olhos para acreditar… é fabuloso! Maravilha!
- Este gajo é um autêntico boi de força – Booaa!
- Até deu gosto ver!
- Parabéns pá!
- Parabéns seu tangas!
- “nhã-nhã-nhã… que era muito difícil…” e afinal…
- Subiu que parecia o macaquinho Fishuber….Impostor!
- Palerma! Chorão de m*rd*! Vai enganar a tua prima ó tretas!
… Anda práqui a fazer filmes e agora sai-se com esta? Vai-te-c’gá’páá!
A Reacção dos humilhados e infortunados candidatos ao encadeamento da preciosa via não se faz esperar.
Aquele bocadinho de cada um, que, há segundos tinha atingido o top, esborracha-se na indignação geral.
Chegado ao chão desdobra com cuidado o seu “saquinho” (ilusório) de donativos, que circula entre os presentes recolhendo (figurativamente) por entre assistência os elogios que investiu nos méritos alheios e nos que entretanto se multiplicaram. É o cúmulo da “arte financeira” semita em unidades medida de satisfação efémera.
Encadeou. Mas não perde tempo em manifestar a sua insatisfação pelo esforço dispendido, e “- não agarrei tal presa… e os pés até saíram… não foi bem como eu queria… eu não merecia encadear…” – que nojo de descaramento! – “… não estava à espera… porque é que hei-de ser tão bom(a) tão excelso(a) e lindo(a)? Não é justo (suspiro)” – e a assistência, abanando a cabeça: - Porquinho! Porquinho chorão! Vai-ta’pó…!
Há um prazer mórbido nesta dialéctica de arrastar ao mais profundo da humilhação pessoal as expectativas para depois, num repente, virar tudo ao avesso, saindo projectado em glória, uma glória esplendorosa, da mais aparatosa apoteose de sucesso.
Patológico. O Chorão chega a “meter nervos” nas pessoas. E isto é genial.
Trata-se de um exercício de polimento do ego sustentado na criação de uma grande amplitude ascensional na escala da admiração pública. Essa amplitude que vem desde o patamar mais baixo e profundo da penúria humana e que, por vir de tão baixo, toma contornos de fulgurante ascensão. Quando na verdade fez o que já outros fizeram por um preço mais “barato”. Tretas, no fundo.
Se tivesse começado ao nível do chão, “na base da via”, a glória seria “só metade”. Assim, como fez um choradinho de lamentações, “cavou” uns patamares mais para baixo acrescentando à via, metros, grau e valor, sem por outro lado arriscar ser pontapeado pela plateia caso falhe, uma vez que já conseguiu amealhar uma grande compreensão e humanidade nos corações de todos.
Isto é genial!
Eis “o chorão”.
Quem nunca escalou com um bom chorão que verta a primeira lágrima!
sexta-feira, 15 de dezembro de 2006
A Frouxidão do Chorão
quarta-feira, 13 de dezembro de 2006
Para além de Frouxo… também… Chorão
Como se já houvesse cá poucos…
Pois é. Temos pendura. Foi a melhor forma que se encontrou para evitar a proliferação maciça de blogues irrelevantes sobre escalada mesmo que jurem que têm “outro-assunto-na-vida-para-além-de-escalada”.
Criar um blog está demasiado vulgar. Requer, no entanto, algum dinamismo de iniciativa. E iniciativa é algo que os frouxos racionam muito bem. Logo, o cúmulo da frouxidão só poderia estar no estatuto parasitário de se colar aos blogues dos outros, mantendo um índice de responsabilidade e compromisso baixinho e discreto.
É aritmético: a responsabilidade, quanto mais se divide mais tende para o zero. Essa-é-qué-essa!
Além disso está na moda. Blogues que começam extremamente pessoais, até com um fascinante charme distintivo, têm sofrido, ultimamente, vergonhosos assédios. Insidiosas personagens infiltram-se nos íntimos recantos dos outros com os mais patéticos pretextos: “áh! é só este textosito, depois deixo-te em paz… e mais este “breve” artigo, talvez mais este…”, ou: “Vá lá! Dá-nos as senhas… vais ver que apesar de tudo continua a ser um blogue intimista como sempre quiseste! vá lá! Somos só mais dez! …”
E com esta e outras, “emplastrificam-se” os blogues por esse mundo fora…
Frouxo mais frouxo não há, nem pode haver.
“Então, e quem será Vossa Senhoria, que aqui se instala neste recanto de indolentes??” Pergunta o leitor (aquele leitor que por azar aqui se demorou para desenfastiar das coisas imensamente mais interessantes e úteis que poderia estar a fazer).
A pergunta deveria ser outra: quem é que ainda não tem uma treta destas?
Se ser frouxo é trazer na alma um retrato colectivo, esse retrato corria o risco de ficar incompleto se não irmanasse com a créme-de-la-créme da impostorice frouxista:
Senhoras e senhores, meninos e meninas sérias!... É com imensa indiferença que me apresento neste circo internautico…
O... CHOORÃÃO!
Esse mesmo. Aquele com quem se encordam tantas vezes: o Chorão. Um bom chorãozinho queixinhas “à maneira”.
“Ai que carago! E eu a perder tempo com isto!” lamenta o leitor.
Pois eu prometo que um dia ainda vão apreciar os escritos deste autor. Ainda hão-de saber ver o real valor destes textos palermas. Pequenos na pertinência e, quiçá, reduzidos no valor de entertainment. Uns modestos textos … a bem da verdade, uns textículos sem-pés-nem-cabeça.
Mas, um dia, alguém ainda vai dizer:
“- Áhh! que belos textículos que o Chorão tinha! … -Que falta fazem os textículos do Chorão… Ai! que pena que já não há mais…”
E aí, já não vou estar a chorar, mas a sorrir, altivo, confortavelmente reclinado na minha “fisga” moral! Ohohohoh!
A vantagem dum chorão num blog destes está em dar uma perspectiva mais humana (lamechas) num mundo rude e mau e cheio de coisas que picam na ponta dos dedos, arranham a pele e magoam os tendões. Razão pela qual, agora termino esta apresentação, porque não me estou a sentir em forma para continuar, além disso ainda não estou completamente refeito do susto do outro dia em que quase caía antes de agarrar a expresso … Os ombros não estão nada famosos e ainda faltam algumas sessões de fisio…. e o dedo ainda não está bem recuperado da fibrose na sétima junta sinovial (Ah pois! Um bom chorão conhece todo o léxico clínico-ortopédico relacionados com as maleitas da arte).
I climb as hard as anyone on earth. I just do it on easier routes.
(“Mad Dog”, 1998)
mais vale um frouxo com a expresso na mão que um chorão a voar
Só para avisar os assíduos desta espelunca que a partir de hoje haverá outro escriba neste blog. Pensei em convidar o Chris Sharma para o efeito mas ele anda ocupado com as aulas da segunda classe. Além disso, esse gajo é forte e destemido, e do que este blog estava a precisar era um gajo com "uma percepção equilibrada e sensata da realidade". De modos que a partir de hoje teremos connosco o chorão. Assim, o blog continuará homogéneo, já que ambos os dois sabemos como manter o espírito da coisa. É só ir em top.
quinta-feira, 7 de dezembro de 2006
a frouxidão do futebol
Ontem à noite o Benfica foi eliminado da Liga dos Campeões. E com esta notícia perdi metade dos leitores deste blog. Não que estejam chateados com a eliminação do Benfica – na verdade até devem estar contentes, porque assim “não temos de apanhar com futebol a toda a hora”. Esquecem-se é que o Benfica vai continuar na UEFA. Ah ah ah! (riso maquiavélico).
A verdade é que o Benfica, apesar de um começo auspicioso, não soube aguentar a esperada pressão do Manchester United – só um terço dos leitores que começou o texto me está a ler neste momento - e, quando a equipa das águias saía para o contra-ataque, tentava municiar os dois atacantes em longos lançamentos – um quinto dos leitores! – que favoreciam a antecipação dos possantes defesas da equipa inglesa. Em suma, o meio-campo povoado e o pressing alto do Manchester cavaram um fosso na equipa portuguesa não permitindo que a transição defesa-ataque fosse feita de forma eficaz.
Agora que cerca de nenhum dos escaladores que começou a ler este texto me está a acompanhar neste momento, posso debruçar-me sobre a importante questão: Qual a razão do ódio que os escaladores nutrem pelo futebol? Para mim existem vários motivos.
O jogo em si:
- Não é um desporto. Desporto envolve natureza e ar livre e mainãoseiquê. Ou seja, tudo aquilo que um escalador disfruta enquanto forra os pulmões a magnésio num muro pouco maior que o WC do centro comercial Martim Moniz.
- É uma estupidez. 22 gajos a correr atrás de uma bola. Onde é que já se viu. Dar cinco tralhos de seguida enquanto se tenta subir por uma rocha, quando se podia chegar lá acima pelo caminho à volta, parece-me uma alternativa bastante mais inteligente.
- É pra meninos. Homem que se preze já esteve com os pés dois metros acima da última protecção – ainda que tenha cagado a cueca no acto.
A bola:
- É redonda. C'um camandro. E teima em fugir das pernas desengonçadas dos escaladores que, por mais lolotes que façam na rocha, são incapazes de a dominar num campo. Escalador que se preze tem a coordenação motora de um hipopótamo.
- É pesada. Um verdadeiro teste às pernas tira-linhas do escalador que, não fosse a falta de coordenação motora do outro escalador que “defende” a baliza, seria incapaz de marcar um golo de fora da pequena área.
- Rebola. O escalador mais fanático acredita que o movimento de uma bola não obedece às leis da física - a não ser que estejamos a falar da teoria do caos.
Os jogadores:
- São gajos iletrados, que não dão uma para a caixa quando falam para as câmaras. Ao contrário, por exemplo, dos surfistas.
- São ricos e auferem salários criminosos. Ao contrário do Roger Federer, do Tiger Woods, do Michael Schumacher e de qualquer suplente da NBA ou da liga profissional de futebol/baseball americano.
- Têm um sentido fashion invejável que, diga-se de passagem, chega cem vezes para arrumar na gaveta as calças de licra de qualquer escalador dos anos 80.
- Têm gajas boas. Que o escalador, do alto dos seus cabelos desgrenhados, ar sujo e mãos rebentadas pelos entalamentos em fissuras, atribui desdenhosamente ao dinheiro. Mas que, para dizer a verdade, inveja com toda a força do seu ser (as gajas boas, não o dinheiro. Pronto, o dinheiro também).
Apesar de tudo, acho que é possível gostar de futebol e de escalada. Em tempos achei que se existisse um ranking combinado de ambas as modalidades eu seria o campeão. Mas depois descotaram os meus dois melhores encadeamentos à vista para quarto superior. Paciência. Resta-me o chinquilho. No chinquilho ninguém me bate.
segunda-feira, 20 de novembro de 2006
o jantar dos frouxos
Uma vez que padeço de uma doença crónica de decotação, cujo sintoma se manifestou quando descotei a via "poios" para IV+, após encadeamento ao quinto ensaio (do dia), considero-me intimado.
Vai ser assim a modos que do c 'ralho.
quinta-feira, 16 de novembro de 2006
a queda de um mito, mas não de um frouxo
"O rabeta foi lá em top". É desta forma injuriosa que nos comentários d'outro estaminé se comenta a ascensão de Alain Robert à Torre Vasco da Gama. Reconheço o ataque. Aguento a injúria. Engulo a falácia (epá, isto não soou nada bem). E, tal como Chris Sharm... aliás, Jesus Cristo, dou a outra face.
Ao que parece, o spiderman francês, como é conhecido pelo público em geral (ou "superman francês" como é conhecido pela redacção do jornal Público em particular, pelos vistos o superman também escala prédios, deve ser quando está impossibilitado de voar porque se esqueceu da capa na lavandaria, vá lá, não lhe chamarem "capitão américa francês" já não foi mau) foi impedido de escalar a torre a solo. Mas nem assim o intrépido escalador hesitou, aceitando o desafio de braços abertos e realizando a ascensão do edifício com a corda por cima.
A notícia rebentou que nem uma bomba na nossa comunidade. Braços ergueram-se para o céu, vozes bradaram "infâmia", gargantas clamaram por vingança. Até já ouvi escaladores a dizer, algumas mulheres incluídas, que não querem mais ter um filho de Alain Robert. Pela minha parte, foi com uma lágrima no canto do olho, mas uma lágrima de esperança, que assisti a este glorificante espectáculo. Porque na verdade, o épiderman francês sabe que a escalada em top é o mais parecido que existe com escalar a solo. Como alguém disse num determinado fórum de escalada, estou mais além, sou um visionário. Aliás, aproveito para anunciar que da próxima vez que for à Guia, vou solar a via verde!!
Não queria terminar sem enviar um abraço de apreço ao jornalista da SIC que a julgar pelas sábias palavras - "vamos assistir à escalagem do alpinista francês" - deve ter lido o meu blog antes de fazer esta reportagem. É bom saber que uma parte da classe jornalística ainda se documenta convenientemente antes de tratar estas matérias.
Expresso agarrada por
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quinta-feira, 9 de novembro de 2006
a frouxidão dos passitos
Não sei porquê, caio sempre nos passitos. A malta diz-me "ah, a via é uma cagada, só tem um passito ali a meio". E eu vou todo contente, chego à via e faço os passos todos, faço o passo antes, o passo depois, só não faço o passito. Normalmente o passito é uma cena do estilo agarras o monodedo que está no cú de Judas, epá, espera lá, monodedos no cú de Judas não me soa bem, pronto, o monodedo em cascos de rolha, nunca percebi o que são cascos de rolha, será que as rolhas têm cascos, se têm nunca os vi, e depois sobes os pés numas cacas e lanças ao bidedo bom. Claro que os passitos não são sempre assim, às vezes sobes em regletes de menos de uma falange enquanto tens os pés em cacas, para depois lançares ao bidedo bom. Ou ainda, agarras aquela lateral mesmo má e, pés na caca, lanças como se não existisse o amanhã para o bidedo bom. Em qualquer dos casos, acertas acima, abaixo, ao lado, mas nunca chegas a agarrar o bidedo bom. O que é uma pena, porque o bidedo bom é mesmo bom. Aliás, é esse bidedo bom que dá a cotação de dois graus abaixo do que a via realmente custa. Tudo porque o pessoal forte se agarrou ao bidedo bom e viu "eh, pá, isto é mesmo bom. Que cagada!"
As vias de passitos fazem lembrar-me as francesinhas, por causa do diminutivo. Um gajo pede um pastelinho de bacalhau e come-o de uma dentada. Chega a casa de um amigo e oferecem-lhe um bolinho. Ou uma bolachinha. E julga que a francesinha também é coisa para se comer de uma só vez (a descrição pode enganar, mas refiro-me à iguaria, não à cidadã de origem francófona). Um gajo até se arma em lambão e pede duas, a pensar "bom, avio já isto tudo, nem demora dez minutos" ou "ui, que vai saber tão bem". Volto a lembrar que continuo dentro do domínio da gastronomia. Depois quando chegam à mesa é que um gajo percebe que as francesinhas parecem francesonas. Afinal de contas, é coisa para andar de volta daquilo durante horas. No fundo, como nos passitos.
terça-feira, 7 de novembro de 2006
...
Noutro dia, um amigo aconselhava-me contra a tentação de me empenhar em demasia na escalada, em detrimento de outros prazeres (e deveres) da vida. Dizia-me ele que era importante saber colocar as coisas em perspectiva e não depositar todas as esperanças, energias e motivações unicamente na escalada. Porque se a escalada falha, se a motivação se vai… a verdade é que todos nós sabemos o que é o vício, aquele gostinho especial de tentar fazer a via, a parede, o cume… e aquela ânsia que nos faz esquecer rapidamente o sucesso de ontem e que faz a nossa vida girar em função do objectivo de amanhã.
Por paradoxal que pareça, a conversa acabou por incidir sobre a escalada como objectivo de vida. Apesar de tudo, não será legítimo devotar o nosso esforço a subir calhaus? Se outros trabalham para poderem gastar os fins-de-semana no Colombo, porque raio não poderemos nós trabalhar para a escalada de fim-de-semana? Neste breve período em que estamos animados, em que não somos simples matéria orgânica, haverá alguma razão que nos impeça de desfrutar ao máximo? Quando morrermos, o que levamos connosco? O que é mais legítimo? Passarmos a segunda metade da vida conduzindo um Mercedes SLK ou podermos dizer que subimos ao ponto mais alto de cada parede que encontrámos?
Hoje, quando estava a preparar-me para atravessar a rua, hesitei em apertar o botão de um semáforo. Veio-me à memória a criança que morreu em Lisboa, há alguns anos, depois de carregar no botão para que o semáforo passasse a verde. E lembrei-me de uma frase feita, dita numa conversa que tive há cinco dias com um amigo, sobre a infeliz notícia do dia anterior. O meu amigo, que não conhecia o Bruno Carvalho, disse-me “ao menos, morreu a fazer aquilo que mais gostava”. Na altura, pareceu-me um ponto de vista quase banal, até porque não estava capaz de ter uma leitura tão fria da situação. Mas agora, colocando as coisas em perspectiva, penso sobre qual será a forma mais estúpida de morrer: após realizar o sonho de anos, talvez de uma vida, mesmo que este tenha sido pago com o preço mais alto, ou electrocutado por um semáforo?
Muitos amigos meus que obviamente não escalam comentam a morte do Bruno apelidando o seu sonho como um acto louco, impensado, pura e simplesmente um desafiar da morte. Reduzir esta tragédia à condição da consequência natural de um acto gratuito e irracional é retirar todo e qualquer significado à vida do nosso companheiro. Sei que ele conhecia os riscos mas a sua vontade de sonhar falou mais alto. Porque ele sabia que só seguindo os nossos sonhos poderemos ser felizes. Apesar de conhecer o risco, o Bruno escolheu ser feliz.
Não te esqueceremos.
Expresso agarrada por
frouxo
às
17:50
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terça-feira, 31 de outubro de 2006
a religião dos frouxos
Chuck Norris' dick is so big, it has it's own dick, and that dick is still bigger than yours*
Grande coisa. O El Carallon também tem uma pila própria. E dois testículos. Aliás, se não fosse essa segunda pila não sei como é que a malta fazia o passo. Eu bem vejo o pessoal a esticar-se, mãos nas invertidas, a subir os pés e a agarrar-se ao pequeno pirilau, exprimindo de seguida uma profunda sensação de alívio enquanto procedem ao agarre do carallon propriamente dito. Depois é vê-los a amarinhar por ali acima, visivelmente satisfeitos, abraçando fervorosamente o dito cujo em todo o seu esplendor. E um gajo fica a pensar como é bonita a obra de Deus. Sim, porque estou plenamente convencido que a escalada é obra divina. Já repararam como as presas das Buracas do Cagimil são ergonómicas? Mesmo à medida para serem agarradas. Bem sei que os geólogos hão-de ter uma explicação. Que a sedimentação isto e aquilo, patati patata. Mas eu não acredito nessas coisas. Deus dotou El Carallon de um segundo falo com o propósito claro de permitir a escalada daquela via. Ainda por cima o Senhor demonstra criatividade e sentido de humor, permitindo ainda que cada um de nós expresse a sua verdadeira natureza através da maneira mais ou menos entusiástica como se agarra ao supracitado badalo.
Noutro dia estava a escalar em solo uma via na rampa dos crocodilos - aquela onde penduraram uma corda com nós para ajudar o pessoal mais frouxo a subir. Quando parei para sacudir os braços e olhei para trás, reparei que há lá uma via com uma secção que não tem absolutamente nada para agarrar. Essa secção termina num enorme buraco para onde a malta lança a partir de duas presas, mais de um metro abaixo. Ou seja, Deus Todo-Poderoso criou aquele buraco de encomenda.
É por estes motivos que estou a pensar seriamente em fundar uma corrente religiosa (se disser “seita” parece que estou a querer gamar dinheiro ao pessoal - não que não seja verdade mas o segredo é a alma do negócio) que assenta no princípio de que a escalada é o reflexo da existência de Deus. Vou fundar um santuário bem na base do El Carallon, onde todos possamos contemplar o milagre. Será local de peregrinações cuja entrada (o dízimo) reverterá a meu favor com a desculpa de que é para equipar vias e substituir topes. Mas há mais. Vou convencer o pessoal de que o filho de Deus é Chris Sharma. Vou convidá-lo, a troco de uma mesada em erva, para andar a apregoar a fé entre os escaladores. Com aquelas rastas, o ar meio zen e meio desalojado e de flauta em punho, parece-me que a malta o vai seguir como ao flautista de Hamelin. Ele será o meu fiel apóstolo.
* Gamado daqui
quinta-feira, 26 de outubro de 2006
é a cultura, frouxo!
Depois do meu último texto o meu e-mail foi inundado por centenas de missivas vindas de todos os cantos do planeta. Claro que a maior parte era a habitual publicidade às pílulas para alargar o nãoseiquê e para melhorar o desempenho no nãoseiquemais. O restante era pornografia não requisitada (e também alguma requisitada). Estranhamente, nenhum dos mails que recebi era relativo ao blog. Talvez seja por não ter publicado o endereço de e-mail no site… é capaz de ser por isso.
De qualquer das maneiras tenho a perfeita noção de que todos os que leram a minha posta anterior fizeram a mesma pergunta: “Mas afinal quem era esse Shakespeare?” Ora para elucidar as vossas mentes, e porque os escaladores não lêem nada que não sejam revistas de escalada (acabei de perder metade dos meus leitores) nem costumam ver filmes que não sejam sobre escalada (pronto, lá se vai a outra metade) resolvi tornar este blog um pouco mais cultural. O que se segue é um pequeno resumo de algumas obras que deixaram a sua marca na literatura ou no cinema.
Romeu e Julieta
Começamos com este clássico de Shakespeare que relata a história de dois grupos rivais que disputavam os encadeamentos mais duros na fenda: Os Capuleto e os Montesco. Sempre que um Capuleto equipava um oitavo, logo um Montesco o encadeava e descotava. E vice-versa. Um romance proibido nasce, no entanto, entre dois descandentes destas famílias rivais. Os amantes Romeu e Julieta, que fazem cordada (entre outras coisas mais ou menos badalhocas) e que juntos evoluem na escalada e no amor.
Um dia, Romeu parte uma presa que acerta em cheio na pinha de Tibaldo, primo de Julieta. Temendo envolverem-se num banho de sangue, os amantes elaboram um plano de fuga, mas tudo lhes corre mal. Julieta combina com Romeu na fenda e, enquanto espera, resolve solar a El Carallon. No entanto, no meio do desespero provocado pelo atraso injustificado do seu amante, esquece-se de levar os five.ten e cai na parte da placa porque o pé não ficou numa aderência. Romeu chega ao pé da sua amada, olha para os Quechua que ela tinha calçados e compreende de imediato o que se passou. Enrola um charro com haxe comprada no Martim Moniz e fuma até lhe saltarem os olhos. Mas vai-se a ver e a Julieta não estava morta, apenas tinha batido com a cabeça. Quando acorda e vê o seu amor, morto, com a beata ainda na ponta dos dedos, resolve matar-se também; ainda tentou fumar o resto do charro mas era só tabaco. Vai daí, pega na navalha que ele usava para cortar a corda e espeta-se com ela no coração. Por azar, a navalha era meia enferrujada e não cortava grande coisa mas a Julieta lá acaba por morrer de tétano.
Titanic
História de um bacano que aposta um bilhete de barco em como saca à vista uma via daquelas bem duras. O facto de o gajo ter lançado sem olhar para a presa escondida levanta grandes suspeitas, mas a verdade é que ele lá ganha a passagem para Kalymnos. Na viagem, conhece uma g’anda lasca (embora com tendência para engordar) que se quer atirar da popa (acho que a popa é a parte de trás do barco). Ele lá a agarra, convence-a que a vida vale a pena ser vivida, aquilo em Kalymnos é só chorreira, uma maravilha, toma lá uns five.ten, com isto ninguém te pára, tens é de fazer dieta que os pés de gato são bons mas não fazem milagres, bora lá cantar o “My Heart Will Go On” da Celine Dion na proa (que, portanto, será a parte da frente). Entretanto, a embarcação nunca há-de chegar a Kalymnos, pois choca com um iceberg que andava perdido mesmo no meio do Mediterrâneo. A gaja safa-se, o gajo quina.
O Padrinho
Filme sobre a família de Vito Corleone, um tipo que tem o monopólio dos rocódromos de Nova Iorque. Temido por uns e amado por outros, é a ele que os escaladores recorrem quando não sabem o que fazer. Para estes, sempre tem uma palavra amiga, umas dicas sobre como resolver o crux de uma via ou uma opinião sensata sobre uma cotação. Até que chega à cidade um turco que pede financiamento ao padrinho numas plaquetes inox para equipar umas placas que tinha micado nos arrabaldes da cidade. O padrinho recusa-se a ajudá-lo pois não quer ver as crianças do seu bairro a escalar em placa. Mas o filho, Sonny Corleone, mostra um certo interesse no negócio, pois tinha acabado de comprar uns five.ten e estava mortinho por curtir a aderência da cena no granito. Erro crasso, pois o turco tenta despachar Vito Corleone na esperança de negociar com o herdeiro directo, Sonny. No entanto, o esquema sai-lhe furado, pois o padrinho sobrevive. O esquema não é a única coisa a sair furada ao pobre turco: A implacável vingança de Michael Corleone, o benjamim da família, envolve um Hilti com uma broca de 10 mm, para granito, pronta a estrear.
Forrest Gump
História de um bacano que, apesar de ter uma inteligência bastante abaixo da média (a história passa-se na América, ainda por cima) consegue realizar o sonho americano: Tem tudo pago, passa o tempo a escalar (sempre com five.ten, claro está) e é seguido por uma data de gente que escuta religiosamente todas as barbaridades que o gajo diz. Há quem diga que esta é a história da vida do Chris Sharma.
terça-feira, 24 de outubro de 2006
o Inverno dos frouxos
Chegou o Inverno do nosso descontentamento, tornado glorioso Verão por este filho de York.
Pimba! Aposto que não estavam à espera de entrar neste blog e apanhar com Shakespeare em cheio na tromba. Este blog está muito lá. E isto ainda não é nada. Esperem só até eu me lembrar de escrever um post em que relaciono o existencialismo segundo Heidegger com a escalada à frente.
A verdade é que este filho de York devia ser um frouxo... pois agora que a chuva veio para ficar, o frouxo tem mais uma razão para sorrir. Acabaram-se as desculpas. Não é preciso inventar uma lesão na unha do dedo mindinho ou num pêlo da sobrancelha. A rocha tá molhada, não há volta a dar, bute pró muro, antes que um gajo apanhe uma constipação.
A época invernal opera mudanças extremamente interessantes na fisiologia de um frouxo. Assim que este entra no muro, uma extraordinária mutação ocorre no seu corpo. Alguns efeitos são imediatos, como a recuperação da visão: O frouxo passa a ver as presas! Outras modificações também não se fazem esperar. Todas as lesões desaparecem como que por magia e o frouxo transforma-se num animal, capaz de realizar verdadeiros milagres sobre a pilha de colchões que se avoluma dois metros mais abaixo. Sem a escalada em rocha para atrapalhar os treinos, ganha força sessão após sessão e encadeia bloco atrás de bloco (desde que este tenha menos de sete movimentos, claro). O frouxo será o rei do Inverno, até vir o bom tempo, até as vias secarem, até as desculpas se esfarraparem, em suma, até surgir a ocasião em que o frouxo tenha uma daquelas cenas, vulgarmente conhecidas como expresses, debaixo dos pés…
sexta-feira, 20 de outubro de 2006
a frouxidão do incentivo
Dois homens. Em tronco nú. Uma corda. Por entre os calhaus, ouvem-se frases soltas: "Vai, dá-lhe! Venga aí, vai com tudo! Com tudo!" Enquanto isso, um dos personagens cerra os dentes e vai soltando gemidos. O outro, claro, continua a incentivar: "Vai, aguenta só mais um pouco! Com força, agora! Venga!"
Já repararam que a escalada está a milímetros de distância de se parecer com um filme porno para gays? Já nos anos oitenta os melhores escaladores eram alemães. Desde esses tempos, é certo que tem havido uma evolução. Os calções estão mais compridos, já não são de licra, as cores da roupa são menos, enfim, fluorescentes... No entanto, agora incentivamo-nos uns aos outros em espanhol! Qualquer dia andamos a tratar-nos uns aos outros por baby e cariño e mainãoseiquê...
Basta! Chegou a hora de encararmos a escalada como um desporto de machos. Refiro-me a um desporto assim como o remo, em que os gajos andam a remar nas regatas enquanto um timoneiro os insulta. Proponho que, de hoje em diante, se insulte em vez de incentivar. Expressões como "anda, vamos, tu consegues!" não vão a lado nenhum, a não ser que se queira viver um momento de qualidade com o escalador. Daqui a pouco andamos a pedir "Sobe lá isso, amiguinho, por favor!". Porque não um "vá lá, sobe essa merda, mazé" ou "reglete o caralh*, isso é um bajolo"? Ou quando o gajo está no passo duro, que tal dizer-lhe "Vai, agarra essa merda, cabrão, estás aqui p’ra escalar ou p’ra gemer? Se queres gemer, vem cá para baixo que aqui o je dá-te uma razão para gemer!". Isto sim, é de homem.
É claro que zelar pela segurança do escalador continuará a ser fundamental. Nesses momentos, não é de descurar o papel do assegurador em fazer com que aquele não se preocupe em cair: "É na boa, se caíres aí não chegas ao chão… digo eu! Ai achas que vais ao chão? Olha que porra, então não caias! ...duh! Vá, sobe mazé essa cagada..."
terça-feira, 17 de outubro de 2006
terça-feira, 10 de outubro de 2006
a frouxidão das lesões
Gosto de ter lesões. Em primeiro lugar porque só os gajos fortes se lesionam. Se um gajo se lesiona é sinal que esteve a apertar. Nunca veremos a seguinte situação:
-Epá, lesionei-me.
-A sério? Como?
-Tava numa pinça má, subi o pé direito para uma caca e lancei à morte a mão direita para uma reglette. Quando a finquei, o pé esquerdo saltou.Tentei aguentar a porta e ouvi um estalido. Foi o dedo.
-Ui, que mau... isso foi aonde? No IV+ que estavas a experimentar noutro dia?
-Não, tás parvo? foi no V ao lado...
Em segundo lugar, uma lesão favorece de sobremaneira a escalada de um frouxo. Não só o impede de escalar - e sem escaladas não há quedas - como permite conjugar o tempo verbal preferido dos frouxos - o imperfeito do conjuntivo. Tal pode ser visto na frase "Se não fosse a reglete daquele 8a, dava-lhe um tiro à frente!" No entanto, outros tempos verbais podem figurar em outras bacoradas do género: "Aquele 9c não, tem um bidedo que aleija" ou "Aquele V18 tem um passo longo que me força o ombro".
Claro que estas particularidades de algumas vias não vão impedir um frouxo como nós de apertar à morte. Só temos de escolher vias duras sem regletes, bidedos, pinças minúsculas ou aplats manhosos. Nada mais fácil: Sempre existirão vias duras em continuidade, com crux em puxadores (perto uns dos outros, claro, para não magoar o ombro em passos longos). Chamam-se quartos graus.
Ah, já me esquecia. Era só para avisar que mais um bocadinho e este era o primeiro post sem uma referência ao Chris Sharma. Foi por pouco.
quarta-feira, 4 de outubro de 2006
a frouxidão das opiniões
Desde que este blog apareceu uma pergunta tem percorrido o espírito da comunidade escaladora internacional: Mas afinal quem é este parvo? E há quanto tempo permitiram o acesso à Internet nos hospitais psiquiátricos? E qual o impacto deste blogue na comunidade escaladora? E porque é que, a contar com esta, já vamos em quatro perguntas? Não era só uma? Para dar resposta a algumas destas questões falámos com alguns destacados membros da nossa comunidade e pedimos-lhes que dessem a sua opinião sobre o que acham deste blogue. Reparem nesta frase: "a sua opinião sobre o que acham deste blogue". Fenomenal, hã? Não é para todos. E, sinceramente, nenhum dos meus entrevistados esteve à altura. Uns deram-me uma opinião sobre o blogue, outros disseram-me o que achavam do mesmo. Nenhum foi capaz de me dar a sua opinião sobre o que achava deste blogue. Frouxos.
Dani Andrada, escalador de profissão, diz-nos, enquanto encadeia dois 8c’s ao mesmo tempo com apenas um braço, que leu o blogue e gostou muito. Já Bernabé Fernandez, pastor de cabras na Andaluzia, foi mais longe e ofereceu o seu contributo, uma vez que se considera o frouxo-mor: “joder, sólo encadeno una ruta en cada cinco años!” Chris Sharma, tocador de flauta, também leu o blogue e achou-o “fantástico” e “ainda mais duro que fazer o ‘witness the fitness’ depois de encadear a ‘realization’ ”. Talvez não seja disparatado presumir que tal acontece porque, segundo o próprio, “não percebo uma palavra de português a não ser ‘gracias’ ”.
De qualquer maneira, uma vez que o referido bloco está cotado de 8c+ e a via leva a cotação de 9a+ (ora oito mais nove são vinte, não, que disparate, são dezanove) parece-me legítimo cotar este blogue como um 19d+. E não se fala mais nisso.
